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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Salvador Dalí e a "Saudade húmida" de Velásquez

Em 1979 o jornalista Joaquim Letria teve a oportunidade de deslocar-se ao Teatro-Museu Dalí, em Figueres, na província de Girona, para entrevistar Salvador Dalí. Um dos momentos mais interessantes deste encontro acorreu já no final, enquanto o mestre surrealista espanhol se despedia de Joaquim Letria. Saudando o povo português, Dalí evocou as raízes portuguesas de Velásquez, explicando de que forma a pintura daquele artista do século XVII foi influenciada por uma "Saudade húmida" e atlântica, proveniente dessas origens lusas. Um aspecto que, segundo Dalí, conferiu ao realismo que caracteriza a obra de Velásquez uma suavidade etérea sem a qual a pintura espanhola teria secado.
Decididamente, temos tudo quando temos Portugal!

Salvador Dalí fala sobre as raízes portuguesas de Velásquez e da importância da 
Saudade na pintura do mestre do século XVII.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Mural de Manuel Lapa restaurado no Tribunal de Torres Novas

Manuel Lapa foi um dos artistas mais conhecidos da chamada segunda geração de artistas modernistas portugueses. Nascido no seio de famílias nobres, não precisou de títulos para se afirmar no seu tempo. Artista e intelectual, destacou-se sobretudo na ilustração e na pintura, tendo-lhe recebido várias encomendadas de parte do Estado Português. Sobretudo murais com motivos históricos e simbólicos, como aquele localizado no Palácio de Justiça de Torres Novas e que está agora em fase de recuperação e restauro. 
O artigo de Cristina Faria Moreira, ilustrado com fotografias de Diogo Ventura, publicado na edição de ontem do Público, dá-nos a conhecer um pouco melhor essa obra, a sua "redescoberta" e os presentes trabalhos de restauro. Vale a pena ler. 

(Clicar na imagem para ampliar.)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Aurélia de Sousa: Memórias de uma Exposição

Terminou ontem a exposição Aurélia, Mulher Artista. Uma mostra retrospectiva da obra de Aurélia de Sousa, organizada nos 150 anos do seu nascimento. Distribuída por dois pólos diferentes, Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio e o Museu da Quinta de Santiago, esta foi a maior exposição da genial pintora portuguesa jamais realizada após a sua morte.
Ao longo dos últimos 5 meses foi possível admirar um vasto conjunto de obras desta artista, muitas delas provenientes de colecções privadas, fomentando-se, uma vez mais, a discussão em torno do presente ocultamento da arte portuguesa. Com efeito, poder-se-á dizer que esta exposição, em conjunto com a de Amadeo de Souza-Cardoso - recentemente realizada em Paris -, prestou um importante contributo para a revalorização da arte portuguesa a nível nacional e internacional. Numa altura em que o Porto é alvo da preferência de turistas de todo o mundo impõem-se, enquanto cidade-berço para várias escolas e gerações de artistas, a promoção deste tipo de iniciativas, tão enriquecedoras como fundamentais para a promoção da cultura portuguesa.
As fotografias que aqui apresentamos remetem-nos para a parte da exposição patente na Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, procurando contribuir para a divulgação da obra de Aurélia de Sousa e a perpetuação da memória do excelente serviço público prestado por esta iniciativa.

Painel de divulgação da exposição de Aurélia de Sousa, colocado à entrada
da Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio.

Sala principal da exposição.

Panorâmica da exposição.

Outra panorâmica da exposição.

Menina num estúdio de pintura (s.d.).

À Sombra (s.d.).

Alguns desenhos de Aurélia de Sousa realizados na sua juventude.

Esboços e estudos de Aurélia de Sousa.

Filósofo (Diógenes) (s.d.).

Auto-Retrato (1889).

Auto-Retrato (s.d.).

Retrato de Natália Rocha (s.d.).

Retrato de Luciana Dias Gaspar (s.d.). Uma obra que revela alguns
traços precursores do nosso primeiro modernismo.

História de Coelhos (Biombo em Tríptico) (s.d.).

terça-feira, 21 de junho de 2016

Aurélia de Sousa, 150 anos

«A pintora Aurélia de Sousa logrou alcançar reconhecimento pela qualidade técnica do seu trabalho, um factor aliado à sua condição de "mulher-artista". Efectivamente, o nome de Aurélia ainda constitui uma excepção dentro da galeria dos grandes pintores portugueses, a par do de Josefa de Óbidos, a pintora do barroco português.»
Adelaide Duarte em Aurélia de Sousa

(Clicar na imagem para ampliar.)

A cidade do Porto foi, na viragem do século XIX para o século XX, um importante farol para a arte e cultura europeias. Da pintura à escultura, passando pela poesia, literatura e filosofia, a Invicta revelou-se berço de génios e ponto congregador de artistas e intelectuais. Em 2016 comemoram-se os 150 anos do nascimento de Aurélia de Sousa, uma das figuras mais relevantes da pintura portuguesa dos últimos 200 anos que, a partir da cidade do Porto, alcançou uma surpreendente notoriedade internacional.
Tendo estudado na Academia de Belas-Artes do Porto, com Marques de Oliveira, e na Académie Julian de Paris, com Jean-Paul Laurens e Benjamin Constant, Aurélia de Sousa destacou-se pelo seu génio e singularidade criativa no meio artístico da sua época. Conhecida como interlocutora da estética naturalista, foi antes de mais uma artista livre de amarras estéticas, sabendo conferir a si mesma uma liberdade definidora dos seus fulgores criativos. Das paisagens aos seus auto-retratos, absorve-se da sua obra pictórica o registo intimista das vivências quotidianas da sociedade do seu tempo. Artista de transição, inspirada e atenta – tanto à tradição como às revoluções artísticas da sua época –, Aurélia de Sousa anunciou a convulsão emergente da modernidade.
Contrariamente ao que se tem vindo a afirmar junto de certos círculos, esta artista portuguesa nascida a 13 de Junho de 1866, em Valparaíso, no Chile, não representa, tal como o conjunto da sua obra, qualquer forma percursora do feminismo em Portugal. Pelo contrário, o que Aurélia de Sousa tão bem conseguiu imortalizar nas suas obras foi a beleza e delicadeza da essência feminina em todo o seu esplendor. Não obstante a existência das possíveis condicionantes e constrangimentos que, naquela época, poderiam advir da sua condição de mulher, esse factor jamais constituiu um obstáculo à consagração do seu génio.
Para além de ter estudado em França, Aurélia de Sousa também expôs naquele país, onde a sua obra foi, tal como em Portugal, aclamada e premiada. Assente numa matriz bem portuguesa, a qualidade do seu trabalho levou a que a sua carreira tomasse uma dimensão internacional, sendo ainda hoje aclamada como a principal pintora lusitana desde Josefa de Óbidos. Viajante inquieta e experimentadora de novas técnicas de pintura, dedicou-se também à ilustração e à fotografia. Desde cedo respeitada e admirada por críticos e colegas, fez da Quinta da China, propriedade adquirida pelos seus pais na cidade do Porto aquando do regresso da América do Sul, o seu espaço de predilecção, instalando aí a sua oficina de pintura.
Tendo em vista a celebração dos 150 anos do seu nascimento, inaugurou-se, no passado dia 13 de Junho, uma exposição intitulada “Aurélia, mulher e artista”. Esta mostra encontra-se dispersa por dois espaços distintos: Museu da Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira; Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, no Porto. Esta última instituição – recorde-se –, reúne, juntamente com o Museu Nacional Soares dos Reis, o principal espólio desta artista. Organizada pelas autarquias do Porto e Matosinhos, esta exposição foi comissariada por Filipa Lowndes Vicente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Patente ao público até ao dia 30 de Outubro, esta será, seguramente, a principal exposição póstuma de Aurélia de Sousa. Uma justa homenagem àquela que constitui um dos grandes “génios ocultos” legados por Portugal à arte europeia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Os Reis Magos do Oriente e do Ocidente

Em dia de celebração da Epifania partilhamos o belo e misterioso díptico de Carlos Dugos intitulado Os Reis Magos do Oriente e do Ocidente. Uma pintura plena de simbolismo onde o artista e ensaísta português sintetiza a integração do sentido teleológico da História de Portugal na tradição cristã. Esta obra datada de 2008, nascida Do ciclo Vieira, o Verbo e a Luz, foi inspirada pelo Sermão da Epifania do Padre António Vieira, do qual transcrevemos aqui o seguinte excerto que nos permite descodificar iconograficamente a mensagem deste quadro:  
«S. Bernardo (...) arguiu com seu grande engenho, que assim como houve três Reis do Oriente que levaram as gentilidades a Cristo, assim havia de haver outros três Reis do Ocidente que as trouxessem à mesma fé. (...) Estes felicíssimos Reis foram El-Rei D. João, o Segundo, El-Rei D. Manuel e El-Rei D. João, o Terceiro, porque o primeiro começou, o segundo prosseguiu, e o terceiro aperfeiçoou o descobrimento das nossas conquistas, e todos trouxeram ao conhecimento de Cristo aquelas novas gentilidades, como os três Magos as antigas.»
Os Reis Magos do Oriente e do Ocidente, de Carlos Dugos. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Um exemplo sobre como manipular a História e manter as massas na ignorância

«Se, até aqui, o fanatismo disputou à hipocrisia e à corrupção moral o primeiro plano, vê-lo-emos nessa tela, cuja vastidão duplica, alongar-se para o fundo do quadro.»
Alexandre Herculano em História da Origem e Estabelecimento
da Inquisição em Portugal

À esquerda, Árpád Szenes e Vieira da Silva. À direita, uma fotografia de Paris
após os bombardeamentos norte-americanos, em 1944.

A manipulação e falsificação em História representam dois factores que detonam e inviabilizam qualquer possibilidade de vivermos em comunidade de acordo com os princípios da sã convivência e harmonia, em plena preservação da nossa saúde mental. Porém, todos sabemos a forma ardilosa como os poderes instalados depois do trágico desfecho da II Guerra Mundial, em 1945, projectaram nos olhos dos menos vigilantes as fantasias cinematográficas subordinadas a uma determinada opinião política e a um pseudo-conhecimento histórico. A grande golpada, levada a cabo com a ajuda imprescindível da psicanálise e outras democráticas "artes encantatórias", contribuiu desta maneira para a criação de um mundo ocidental doente, triste, revoltado consigo mesmo, auto-destruidor, penitente, alucinado, absolutamente decadente e mergulhado nas mais lúgubres trevas da incultura e profunda imbecilidade.
Ontem, no Forte de S. João Baptista, na Foz do Douro, enquanto assistíamos a uma apresentação de um tal de Renato Santos - sujeito irritante que se auto-denominou por três vezes historiador de arte -, apercebemo-nos até onde se tinha enraizado toda uma decadência alimentada pelos mesmos cancros mal-pensantes de sempre: os democráticos, os liberais e os marxistas. Todo cheio de si, o dito historiador de arte enfadou os presentes com as suas extenuantes masturbações pseudo-intelectuais ao longo de uma penosa apresentação acerca da pintora Vieira da Silva. Patranhada atrás de patranhada, o rapazote de bigodaço catita e trejeitos bastante suspeitos lá foi debitando os seus palpites a propósito do que, do alto da sua douta ignorância, via e lia nos quadros de Vieira da Silva.
Não haveria mal algum caso, inerente à ignorância e a uma sofrível apresentação, não estivesse o figurão desde logo a incorrer em erros históricos gravíssimos, caindo de forma voluntária, ou involuntária, na criação de mais preconceitos e desvios àquilo a que, numa perspectiva positivista da História, poderemos chamar de factos. Assim, interpretando um dos quadros de Vieira da Silva, o douto historiador de arte afirmou ver nele representado o metro de Paris durante os bombardeamentos alemães. Sim, foi mesmo isso que ele afirmou: os bombardeamentos alemães da cidade de Paris. Uma mentira que hoje em dia se cola, facilmente, junto dos mais incautos e mal preparados, contribuindo para a legitimação de mais uma instituição de fundo pró-judeu e sionista como é a Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva.
Acontece que, de facto, a capital francesa foi bombardeada em 1944, mas não pelos alemães. Os bombardeamentos foram levados a cabo pelos norte-americanos, entre os dias 20 e 21 de Abril de 1944. E não, os alemães não incendiaram as livrarias de Paris durante o período da ocupação. Curiosamente, aquela cidade conheceu até grande vitalidade cultural durante o período da ocupação nacional-socialista.  
O tal Renato Santos, o historiador de arte, não é propriamente um curioso sobre a obra da pintora Vieira da Silva, nem tampouco alguém não familiarizado com a artista de origem portuguesa. Na verdade, ele trabalha para a Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, tendo sido na qualidade de representante daquela instituição que o mesmo se apresentou ontem naquele encontro. Ora, tratando-se estes erros de desconhecimento histórico, ou mera filha da putice, preocupa-nos enquanto portugueses o estado a que chegaram a nossa Educação e Cultura, bem como a incúria e o propositado desmazelo intelectual, notório nas pessoas que são arregimentadas nas fileiras do “politicamente correcto” para ocuparem funções em instituições culturais nesta pérfida e democrática III República.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pseudalopex: Arte e inspirações de Haylane Rodrigues

«Pela via de sempre cada passo é novo.»
Rodrigo Sobral Cunha em Visitação dos sóis

Quando a arte e o talento se aliam ao Amor todas as barreiras e fronteiras parecem esbater-se. Os mundos aproximam-se, até os contíguos, e desta cumplicidade nascem sonhos com um espírito de permanente comunhão, criando-se pontes até ao infinito. Enceta-se assim um caminho para a sublimação e superação da própria individualidade, através do qual a Verdade se manifesta pela seguinte tetralogia portuguesa: Saudade, Paixão, Amor e Glória. De resto, isto foi o que aconteceu com a ilustradora brasileira Haylane Rodrigues que, desde a sua aproximação da cultura portuguesa, em finais de 2013, se viu abraçar com a atávica paixão de quem, por intermédio do espírito e do coração, regressa à sua matriz primordial, redescobrindo-se.
Nascida em 1990, Haylane Rodrigues é natural do Estado da Paraíba, no Nordeste do Brasil. Apesar da precocidade com que se manifestou o seu talento, nunca equacionou a possibilidade de um dia poder enveredar por uma carreira artística. Autodidacta de formação, bebeu fortes influências nos domínios da Filosofia, História, Literatura, Poesia, Mitologia, Zoologia e tradições populares. Fortemente enraizada na tradição nordestina e na ideia de um Sertão ideal, através do qual recebeu claros ecos da cultura clássica e portuguesa, consagrou sempre o seu coração e a sua arte ao mais elevado e puro sentido da beleza. A sua arte, “bela, moral e armorial”, reaviva a centelha da tradição e da virtude incluída naquela simplicidade natural, apenas característica entre os que possuem o talento de bem-fazer.
Entre 2014 e o presente ano, Haylane Rodrigues tem vindo a realizar uma série de trabalhos votados à cultura portuguesa, em particular no âmbito do retrato, revisitando personalidades como Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Dalila Pereira da Costa, Carlos Eduardo de Soveral, entre outras. A sua notoriedade em Portugal advém desde logo das colaborações regulares com algumas publicações periódicas como, por exemplo, os jornais O Diabo e Diário do Minho, ou a revista Nova Águia, onde tem publicado alguns dos seus trabalhos. Tendo já ilustrado dois títulos do catálogo das Edições Réquila, as suas criações têm também figurado em inúmeros cartazes e convites para encontros ou eventos relacionados com a cultura portuguesa, ou o diálogo filosófico-cultural luso-brasileiro.
O crescente interesse desta artista pela cultura portuguesa, correspondido no interesse dos portugueses pela sua arte, abriu a possibilidade de expor a sua obra em Portugal, ainda durante este ano através da realização de duas exposições diferentes, previstas para as cidades do Porto e Lisboa. Até lá, poderemos acompanhar o trabalho de Haylane Rodrigues ou fazer encomendas, através do blogue do seu projecto Pseudalopex, visitável em http://pseuda-lopex.blogspot.com.

Templo de Diana, aguarela (2015). 

Sampaio Bruno, ilustração com arranjo gráfico de André Henriques (2014).

Teixeira de Pascoaes junto à Fonte dos Golfinhos, desenho a lápis (2014).

Fernando Pessoa, retrato em aguarela (2015).

Dalila Pereira da Costa, retrato em aguarela (2015).

Carlos Eduardo Soveral, retrato em aguarela (2015).


Mariana Alcoforado, retrato inacabado a lápis (2014). 

José Almeida, retrato em esferográfica (2014).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Poema para o Natal

Porque a poesia também é oração, sobretudo quando a mão do poeta é guiada por divina inspiração, este ano, contrariamente aos anteriores, sugerimos um poema para a celebração da chegada do Deus Menino.
A Nova Casa Portuguesa deseja a todos os seus amigos e leitores um Santo e Feliz Natal, repleto de amor e muita esperança. 

O Menino Jesus Salvador do Mundo, pintura de Josefa de Óbidos (séc. XVII).

Poema para o Natal

Cria-se mais criança
o dia de antigamente
ao nevar-se o poema
Porque a poesia também é oração,
de versos brancos,
tão brandamente abertos 
ao dia mais claro
de nascer eternamente
ao mais suave fogo aceso:
de não ser chama, somente,
mas verso vivo,
puro fogo preso ao Sol
de ser criança continuamente.

Poema inédito de José Valle de Figueiredo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Conferência de Carlos Dugos sobre Lima de Freitas, o 515 de Dante e a Geometria Sagrada

«Sobre o pórtico do convento de Tomar, coração do templarismo lusitano, podemos ler uma inscrição que se interpreta, de uma maneira geral, como a assinatura do mestre construtor (João de Castilho) e a data da obra, 1515; vemos de forma clara, separadas do resto, os três números 515.»
Lima de Freitas em Porto do Graal.

(Clicar na imagem para ampliar.)

Indiscutivelmente, Lima de Freitas foi uma das figuras mais relevantes da arte portuguesa da segunda metade do século XX. Pintor, ilustrador e ensaísta, mergulhou no estudo do esoterismo ocidental e da tradição portuguesa após peregrinar por um conturbado e heterodoxo itinerário. Dotado de um singular talento foi, juntamente com António Quadros, um dos grandes divulgadores da cultura e pensamento portugueses no estrangeiro, em particular em França, tendo estabelecido um importante conjunto de  amizades com alguns dos mais importantes pensadores, artistas e intelectuais da sua época. Marginalizado e esquecido por motivos ligados à "baixa-política" que assola a nossa contemporaneidade, o nome de Lima de Freitas aguarda ainda por um justo reconhecimento que lhe é mais do que devido pela sociedade portuguesa.
Na próxima Sexta-Feira, dia 28 de Novembro, pelas 21:30, na Casa do Fauno, em Sintra, o pintor e ensaísta Carlos Dugos proferirá uma conferência intitulada Geometria Sagrada: Lima de Freitas e o 515 de Dante, revisitando alguns dos aspectos mais importantes da obra e do pensamento daquele artista português. O custo de inscrição é de apenas 3€. Não percam!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Camões, a Divindade tutelar da nossa Pátria!

Celebrar o 10 de Junho é celebrar Camões e celebrar Camões é celebrar a Pátria. A divinização do poeta da nossa gesta operou-se no coração e no espírito do nosso Povo de forma natural, conforme aconteceu também com D. Afonso Henriques, a Rainha Santa Isabel, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, ou D. Sebastião após o seu sacrifício em Alcácer Quibir. 
Camões foi um homem colectivo. O seu génio era maior do que tudo o resto que fazia dele apenas mais um homem entre os homens. Apercebemo-nos com no autor d'Os Lusíadas o sentido da singularidade transcendente, bem como da sagrada missão entregue por Deus aos grandes Poetas. 
Teixeira de Pascoaes, o velho sábio da montanha, percebeu-o bem, escrevendo nas páginas da revista Águia:  
«Camões é uma divindade portuguesa; a Divindade tutelar da nossa Pátria. Portugal tem vivido à sombra do épico imortal: é o único país cuja autonomia se tem firmado sobre o nome de um Poeta.
A sombra de Camões vigia as nossas fronteiras e ampara as nossas Colónias. É uma fortaleza espiritual e por isso indestrutível.
Camões é ainda o nosso ponto de contacto com a Humanidade, com a vida eterna, porque ele foi o supremo intérprete do génio aventureiro e descobridor. Vasco da Gama transfigurado em sonho, eis o Poeta d'Os Lusíadas - esse poema feito de ondas, espumas, névoas, tempestades... Neptuno reencarnou em Camões para escrever em verso heróico a sua autobiografia.
Os Lusíadas são os Evangelhos do Mar. O Mar é o nosso Livro de Orações. Ler Os Lusíadas é rezar o Mar...
» 
Luís Vaz de Camões num quadro do pintor
português José Malhoa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Amadeo de Souza-Cardoso: retrato de um modernista

«O singular percurso artístico de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) e a sua participação activa na legitimação das vanguardas internacionais da sua época faz dele, nacional e internacionalmente, um "caso de estudo" particularmente fértil. Essa participação traçou-se naturalmente e à medida que expunha as suas obras nos mais importantes acontecimentos artísticos que marcaram o modernismo europeu,...»
Catarina Alfaro em Amadeo de Souza-Cardoso


Celebra-se hoje o 126.º aniversário do nascimento de Amadeo de Souza-Cardoso, um dos principais pintores do nosso modernismo. Activo durante um período de aproximadamente 14 anos, a sua obra acabou por marcar a pintura portuguesa e europeia do século XX. Apesar de ter viajado pelo mundo e frequentado os ciclos parisienses, onde privou de perto com a vanguarda artística europeia, Amadeo jamais perdeu a sua matriz, ou esqueceu as suas raízes, conseguindo um perfeito equilíbrio entre a tradição e o modernismo.
Fecundadas pelas outrora milagrosas águas do Tâmega, as terras amarantinas foram berço de inúmeras personalidades ligadas à nossa pintura, música, literatura, poesia, fotografia e pensamento filosófico. António Cândido, Teixeira de Pascoaes, António Carneiro, Acácio Lino, Eduardo Teixeira Pinto, ou Agustina Bessa-Luís, são apenas algumas das figuras ilustrativas do génio criador português, que nasceram em terras de S. Gonçalo, numa região então pouco urbanizada e fortemente voltada para a terra e o seu trabalho.
Amadeo de Souza-Cardoso foi outra dessas personalidades naturais daquela região, tendo nascido em Manhufe, concelho de Amarante, a 14 de Novembro de 1887. Apesar de oriundo de um meio pequeno, a condição dos seus pais como reconhecidos produtores vinícolas permitiu-lhe estudar e alimentar a sua precoce vocação artística, inicialmente associada à caricatura. Uma arte que desenvolveu durante as estadias em Espinho, durante a época balnear, onde conheceu Manuel Laranjeira, com quem haveria de travar uma amizade bastante forte e duradoura.
A sua formação artística levou-o até Lisboa em 1905, onde frequentou o curso preparatório de desenho na Real Academia de Belas-Artes. Um ano depois, no dia em que perfez 19 anos, o jovem Amadeo partiu para Paris, com intenção de estudar arquitectura na École des Beaux-Arts, iniciando assim uma das mais brilhantes e fascinantes carreiras artísticas da arte portuguesa do século XX.

Retrato de Amadeo de Souza-Cardoso.

A internacionalização
O seu primeiro contacto internacional dá-se com a chegada a Paris, onde se instalou em Montparnasse, juntamente com um outro jovem artista que o acompanhou desde Portugal – Francis Smith. De imediato Amadeo passou a frequentar ateliers de pintura, bem como exposições e locais de convívio entre artistas, desbloqueando e estimulando a sua crescente criatividade. Sentindo uma constante necessidade de descoberta e experimentação, este artista português começou a explorar outras formas de expressão para além da caricatura, destacando-se também na ilustração e, obviamente, na pintura.
Colocando de parte qualquer intenção de estudar arquitectura, Amadeo abraça definitivamente a sua carreira artística em meados de 1908. O mesmo ano em que conhece em Paris Lucie Meynardi Pecetto, sua eterna companheira, com quem haveria de casar-se anos mais tarde na cidade do Porto. A partir de 1910, ano em que “Le Figaro” publicou o “Manifesto Futurista” de Marinetti, Amadeo começou a estabelecer ralações de grande amizade com alguns artistas como Amedeo Modigliani, Constantin Brancusi e Alexander Archipenko. As suas exposições vão-se sucedendo, assim como as suas viagens, levando a que o nome de Amadeo de Souza-Cardoso fosse ficando cada vez mais conhecido entre os círculos artístico-culturais europeus.

Amadeo e Lucie no atelier da Rue Ernest Cresson, n.º 20, em Paris (1913).

A recepção da sua obra
Em 1911, foi inaugurada uma exposição de Amadeo e Modigliani, no próprio ateliê do artista português, situado nas imediações de Quai d’Orsay, iniciando-se um período bastante activo no que concerne a mostras do seu trabalho e respectivo reconhecimento junto dos críticos e do público internacional. Amadeo passou a expor em França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos da América e Portugal. Bastante apreciados, os seus quadros eram igualmente muito procurados pelos coleccionadores de arte, o que indicia bem o seu sucesso.
Não obstante a vasta aclamação internacional, a sua obra foi repudiada pelo público português, valendo-lhe uma série de apupos e insultos nas exposições que realizou nas cidades do Porto e Lisboa, assim como uma agressão que o deixou incapacitado por algumas semanas. Durante esse período, animado pelo apoio recebido por personalidades como Teixeira de Pascoaes e Almada Negreiros, Amadeo continuou a criar a partir do isolamento do seu atelier, entre as montanhas de Manhufe.
Impossibilitado de regressar a Paris durante o período da I Guerra Mundial, Amadeo envolveu-se em alguns projectos editoriais com Almada Negreiros, intercalando os momentos de criação artística com os habituais passeios a cavalo e a caça.

Retrato de Amadeo de Souza Cardoso junto da sua avó
materna e de Lucie Meynardi Pecetto.

A imortalidade conquistada
Amadeo de Souza-Cardoso faleceu precocemente a 25 de Outubro de 1918, vítima da malfadada gripe espanhola, contando apenas 30 anos de idade. Mas essas três décadas de vida revelaram-se suficientes para deixar uma extensa obra e conquistar um lugar na História.
Apesar de nunca ter pertencido oficialmente ao Orpheu, ficou para sempre associado àquele grupo e a nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor, Luís de Montalvão, Raul Leal, Armando Côrtes Rodrigues, ou António Ferro, em virtude da sua colaboração com um desenho feito para o terceiro número daquela revista, entretanto não publicado.
Os seus trabalhos integravam na generalidade os motivos tradicionais nas diversas gramáticas modernistas perfilhadas por si, revelando uma originalidade sem precedentes na história da nossa pintura. O reconhecimento de Amadeo em Portugal, como em tantos outros casos, acabou por chegar tarde, já após o seu desaparecimento. Neste caso, deve-se ao SNI a sua entronização cultural, que tomou uma série de medidas destinadas a celebrar a obra deste importante artista nacional. Repondo-se assim a justiça, a sua marca nos panoramas culturais nacional e internacional acabaria por coroar a memória deste insigne artista português, tão admirado e respeitado hoje, aquém e além-fronteiras.

Canção Popular - a Russa e o Fígaro (1916).

Menina dos cravos (1913).

Trou de la serrure - parto da viola Bon Ménage - Fraise
avant garde
(1916).

Zinc (1917).

Caixa registadora (1917)

A máscara de olho verde (1915).

 Sem título (1917).

Brut 300 TSF (1917).

Cozinha da casa de Manhufe (1913).

Ponte (1914).

terça-feira, 1 de outubro de 2013

60 anos da História de Portugal em Cromos

«O seu ilustrador é Carlos Alberto Santos, hoje um reputado pintor especializado em temas históricos, estando representado em colecções privadas e museus em Portugal e no estrangeiro. Nascido em 1933, começou o seu percurso artístico muito jovem como desenhador. Em 1953, após três anos de trabalho, completou a História de Portugal para a Agência Portuguesa de Revistas. A publicação constituiu o maior êxito da conhecida editora no campo do cromo e tem hoje um estatuto mítico nas memórias dos que a coleccionaram durante os 20 anos em que foi vendida.»
Excerto do texto de apresentação da mostra dedicada aos
60 anos da História de Portugal em cromos.


Estará patente ao público entre os próximos dias 3 e 31 de Outubro, na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa, uma mostra comemorativa dos 60 anos da primeira edição da História de Portugal em Cromos. Uma colecção de 203 cromos com desenhos do Mestre Carlos Alberto Santos, responsável por dar a conhecer a nossa História a muitas gerações de portugueses ao longo de sucessivas edições, todas de grande sucesso.
A organização desta exibição ficou a cargo de Leonardo de Sá, especialista em banda desenhada e ilustração, e João Manuel Mimoso, coleccionador de cadernetas de cromos. A mostra será acompanhada por um catálogo publicado em formato digital e incluirá um encontro com os seus organizadores e o próprio Carlos Alberto Santos, a decorrer no dia 18 de Outubro.
Trata-se de uma oportunidade única para conhecer um dos grandes Mestres da nossa pintura, desenho e ilustração. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade. 

Capa da 1.ª edição da caderneta História de Portugal,
impressa pela Fotogravura Nacional, em Outubro de 1953

sexta-feira, 29 de março de 2013

À Paixão de Jesus Cristo

Enterro de Cristo, pintura portuguesa do séc. XVI da autoria de
Gregório Lopes.

O filho do grão rei, que a monarquia
tem lá nos céus e que de si procede,
hoje mudo e submisso à fúria cede
de um povo, que foi seu, que à morte o guia.

De trevas, de pavor se veste o dia,
inchado o mar o seu limite excede,
convulsa a terra por mil bocas pede
vingança de tão nova tirania.

Sacrílegio mortal, que espanto ordenas,
que ignoto horror, que lúgubre aparato!...
Tu julgas teu juiz!... Teu Deus condenas!

Ah! Castigai, Senhor, o mundo ingrato;
caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas,
também eu morra, que também vos mato.

Barbosa du Bocage.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Os 167 anos de Rafael Bordalo Pinheiro

Rafael Bordalo Pinheiro é provavelmente o artista português do séc. XIX mais presente no nosso imaginário popular. Irmão do grande pintor Columbano Bordalo Pinheiro, foi também ele um génio artístico, responsável pela criação do Zé Povinho, a célebre personagem colectiva que representa ainda hoje de forma satírica a generalidade do povo português. A sua obra distinguiu-se em várias áreas distintas. Da pintura à caricatura, passando o pelo proto-design, ou pela cerâmica, onde deixou um legado absolutamente notável, Rafael Bordalo Pinheiro revolucionou a arte popular portuguesa, elevando-a um nível de erudição bastante raro até então.
Celebrando-se hoje o 167.º aniversário do seu nascimento, a Google decidiu homenagear este importante nome da cultura portuguesa através da criação de mais um dos seus bonitos doodles.

Doodle evocativo do 167.º aniversário do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Paula Rego, a Dama Pé-de-Cabra e outras histórias

«Apesar da base infantil, nada nos remete para um universo inocente; antes para uma encenação na qual reconhecemos facilmente as nossas tentações e os nossos medos e ressentimentos.»
Emília Ferreira em Paula Rego

Radicada em Inglaterra desde os anos 1970, Paula Rego representa um dos principais nomes vivos da pintura contemporânea portuguesa. A força e personalidade da sua obra não deixa ninguém indiferente. Aprecie-se ou não o seu trabalho, o traço desta artista nacional marca todos aqueles que o observam. A transposição para o universo criado pela sua criadora, ao longo de uma extensa e profícua carreira, torna-se inevitável, assim como a transformadora experiência sensitiva de num único olhar vivenciarmos a doçura e candidez sugerida pelo seu traço, cores e temáticas escolhidas, até àquele momento de viragem marcado por um profundo horror após o nosso subconsciente finalmente assimilar e processar a mensagem transmitida pela pintora, caracterizada grosso modo por visões nas quais os sonhos e utopias do Homem se transformam grotescamente nos seus piores pesadelos. Uma inquietude nascida da síntese simbiótica entre o sonho e o pesadelo. 
A partir do próximo dia 24 de Janeiro, a galeria londrina Marlborough Fine Art receberá uma exposição da artista portuguesa intitulada Dame with the goat's foot and other stories. Constituída por um núcleo central de seis trabalhos inspirados na famosa lenda medieval A Dama Pé-de-Cabra, história imortalizada por Alexandre Herculano durante o século XIX na obra Lendas e Narrativas, esta mostra poderá ser visitada até dia 4 de Março, contando ainda com a exibição de outras obras de Paula Rego, nomeadamente o quadro Do you remember an Inn, Miranda?, inspirado pelo poema homónimo de Hilaire Belloc. 
As imagens que se seguem constituem a série de seis pinturas inspiradas na lenda d'A Dama Pé-de-Cabra expostas brevemente em Londres.

A Dama Pé-de- Cabra I.

A Dama Pé-de- Cabra II.

A Dama Pé-de- Cabra III.

A Dama Pé-de- Cabra IV.

A Dama Pé-de- Cabra V.

A Dama Pé-de- Cabra VI.