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quinta-feira, 21 de março de 2013

Os 167 anos de Rafael Bordalo Pinheiro

Rafael Bordalo Pinheiro é provavelmente o artista português do séc. XIX mais presente no nosso imaginário popular. Irmão do grande pintor Columbano Bordalo Pinheiro, foi também ele um génio artístico, responsável pela criação do Zé Povinho, a célebre personagem colectiva que representa ainda hoje de forma satírica a generalidade do povo português. A sua obra distinguiu-se em várias áreas distintas. Da pintura à caricatura, passando o pelo proto-design, ou pela cerâmica, onde deixou um legado absolutamente notável, Rafael Bordalo Pinheiro revolucionou a arte popular portuguesa, elevando-a um nível de erudição bastante raro até então.
Celebrando-se hoje o 167.º aniversário do seu nascimento, a Google decidiu homenagear este importante nome da cultura portuguesa através da criação de mais um dos seus bonitos doodles.

Doodle evocativo do 167.º aniversário do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A mulher e a mentira

Figura tradicional da autoria de Bordalo Pinheiro.

A mulher e a mentira
São dois amantes leais.
Se a mentira é mentirosa,
A mulher é munto mais!

Assim que a casa chegar,
Fazem queixas ao marido:
Tenho o meu corpo dorido,
E é de tanto trabalhar!

Começa o homem a intrujar,
Com palabrinhas tais,
Que o homem acardita a queixa.
A mentira nunca a deixa, 
São dois amantes leais.

A mulher q'ando se lebanta,
bai logo co'a manha fisgada.
Trata logo dum-a torrada
Assim que ó lume s'assenta.

Nunca almoça, nunca janta,
É isso que me admira!
A falar ninguém as bira,
A um-a só'lheira sentada.
Está muito bem comparada,
A mulher e a mentira!

Fazem grandes fritangadas, 
E tigelas de café,
E dizem aos filhos:
- Comer e boca calada,
Ao pai nunca se diz nada...

Assim faz quem é gulosa.
Há muita mulher bondosa,
Num há regra sem excepção,
Mas à mentira todos bão.
Se a mentira é mentirosa.

Têm «muntas» por costume,
Como há pouco eu as oubi dezer:
- 'Inda hoje num comi,
Só se foi brasas de lume,
Essas são as princepais!
Já num aguento os cabedais!
Bá lá mais uma rapésada...
Se a mentira é confiada,
A mulher é munto mais.

Recolha feita por Isabel Silvestre, publicada em Memória de um Povo.

domingo, 22 de maio de 2011

O Pauzinho do Matrimónio

«Há quatro maneiras principais de foder, e vêm a ser: a foda a direito, ou a natural; a foda de lado; a foda por cima e a foda por detrás. Seja qual for a forma, a primeira condição para foder é da parte do homem ter tesão, da parte da mulher, o ser mulher, isto é, ter cono.»
Excerto de um texto anónimo do almanaque O Pauzinho do Matrimónio.

Capa da mais recente reedição do almanaque anónimo
O Pauzinho do Matrimónio.

Apesar do conhecido gosto que os autores portugueses sempre nutriram pelo humor, sátira, libertinagem e um certo erotismo de sabor porno-popular a roçar a boçalidade, nem sempre lhes foi possível desenvolverem livremente o seu exercício criativo. A questão dos costumes sempre foi bastante ambígua na sociedade portuguesa, não se podendo falar de uma crescente conquista na liberdade de criação longe dos olhares condenadores da censura, mas antes de diferentes períodos históricos caracterizados por mais ou menos abertura, tanto por parte da sociedade, como de instituições reguladoras e zeladores desses ditos costumes. Basta pensarmos em Gil Vicente ou no próprio Luís Vaz de Camões que, certamente, terão tido mais facilidade em abordar determinadas temáticas do que, por exemplo, Bocage, alguns séculos mais tarde.
Durante o séc. XIX persistiu-se numa tentativa de moralização institucional da sociedade, o que nem por isso desenfreou o imputo libertino dos nossos maiores. Verdade seja dita, o sexo sempre agradou aos portugueses. Atrever-nos-íamos mesmo a dizer que este quase nos agrada tanto como o próprio escândalo sexual, sendo a figura do "corno" altamente inspiradora, revelando-se um ingrediente obrigatório da nossa tão famigerada piada brejeira. Não obstante esta realidade transversal ao gosto das classes mais altas, assim como das mais baixas, grande parte dos autores preferiam por razões óbvias manter o seu anonimato, nascendo deste modo, na penumbra da semi-clandestinidade, obras como O Pauzinho do Matrimónio - Almanaque Perpétuo.
Esta obra surgiu no Portugal do séc. XIX, durante um período de crise em que o riso era uma importante arma para escapar à depressão em que a nossa sociedade se encontrava mergulhada. Como qualquer outro almanaque daquela época, O Pauzinho do Matrimónio incluía calendário, adágios, adivinhas, canções, contos, pequenos textos costumeiros e pseudocientíficos, distinguindo-se apenas das restantes publicações do género pela perenidade das matérias que versava. Com uma linguagem altamente crua e obscena, Rafael Bordalo Pinheiro associou-se anonimamente à sua publicação ilustrando, ao seu melhor estilo, esses brilhantes textos de vários autores incógnitos. O sucesso desta publicação foi grande, trazendo à tona a boa moralidade popular. Toda a gente criticava, mas toda a gente a lia e conhecia.
Este curioso almanaque foi recentemente reeditado pelas Edições Tinta-da-China, recuperando-se a memória desta importante obra do nosso séc. XIX, importantíssima para conhecermos um pouco melhor os caminhos traçados pela cultura popular e pelo humor português. De forma a deixarmos um pequeno cheirinho sobre o que encontrar e esperar de O Pauzinho do Matrimónio, resolvemos deixar algumas das suas ilustrações, criadas pelo grande Rafael Bordalo Pinheiro.

Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro referente à
capa da primeira edição do célebre almanaque 
O Pauzinho do Matrimónio.

Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro fazendo alusão
a um curioso rifão popular.

Ilustração caricatural da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro.

Outra ilustração de uma das muitas pequenas histórias incluídas no
derradeiro almanaque.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A mensagem das andorinhas de Bordalo

Se há algo que nos domina e predomina na cultura portuguesa é o Amor, esse estranho e inexplicável sentimento descrito magistralmente por Luís Vaz de Camões, o Poeta entre os poetas, da seguinte forma:
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer; 
É um não querer mais que bem querer; 
É solitário andar por entre a gente; 
É nunca contentar-se de contente; 
É cuidar que se ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 
De Norte a Sul de Portugal, indo aos nossos arquipélagos e antigos territórios ultramarinos, encontrámos vestígios e reminiscências desse sentimento-essência constituinte do arquétipo português e da nossa memória colectiva. A cultura popular, pródiga na sua sublime forma de expressar o inexpressível, exterioriza esta realidade de um modo tão genuíno que se torna capaz de derrubar muros ou obstáculos intransponíveis pelos mais doutos intelectuais. Invoquemos a título de exemplo os famosos lenços de amor, tradicionais do belo Verde Minho. Simples na sua concepção, possuem uma força em potência de alcance inestimável, revelando-se autênticos pedaços de alma materializados de forma a poderem ser partilhados.
Não são raras as vezes em que a própria Natureza influi sobre o Homem, tornando-o axiomaticamente bom  e receptivo aos mais altos valores, como o Amor, Lealdade e Fidelidade. Tudo por um mero processo inconsciente de mímesis.

Andorinha de cerâmica proveniente da Fábrica de Faianças
Artísticas Rafael Bordallo Pinheiro
, nas Caldas da Rainha.

Ciente ou não dessa realidade metafísica e antropológica, Rafael Bordalo Pinheiro, em meados de 1891, iniciou na sua fábrica a produção de pequenas andorinhas em cerâmica que ele próprio desenhara. Uma peça que rapidamente integrou e povoou o artesanato e imaginário popular português.
Ave migratória que aquando do seu regresso a um determinado sítio procura construir o seu ninho sempre no mesmo local onde anteriormente habitara, a andorinha, por possuir um único parceiro ao longo da vida, assumiu um simbolismo conotado com valores como Lar, Família, mas sobretudo, Amor, Lealdade e Fidelidade. 
Desta forma, facilmente assimilável pela grei em virtude da sua própria identificação com a mensagem expressa, vulgarizou-se a troca de andorinhas cerâmicas entre os amantes, usadas não só como gesto  de amor ou troca simbólica, mas também como uma espécie de amuleto de harmonia, felicidade e prosperidade no lar e no seio da sempre sagrada família. 
Recuperemos por isso velhos hábitos, pois nunca é tarde demais para admirarmos o voo mágico das aves ou oferecermos uma andorinha a quem verdadeiramente amamos. A quem verdadeiramente queremos e nos completa.