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sexta-feira, 20 de março de 2015

Sob a sombra da andorinha


Sombra da Andorinha

Rente à varanda, à qual, em brando enlaço, 
Olhamos, tanta vez! o mar em frente,
No estranho cosmorama do poente
Ou sonhos de luar, dormente o espaço;

Rente à varanda, ao sol em flexas de aço
E suas pontas de rubim candente, 
As andorinhas voam longamente, 
Fundindo o ninho e os céus no mesmo abraço.

Suas imagens, projectando ao chão,
Dão-me a perfeita e múltipla expressão
De corpos de ave, sob a luz e brasa.

Ora, êste livro, Amor... Tal qual assim!
"Saudade Nossa", ao revoar em mim, 
Apenas é... a sombra da tua asa.

António Corrêa d'Oliveira em Saudade Nossa.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Chegou a Primavera, há andorinhas entre nós

Hoje, na sua coluna de opinião no Público, Miguel Esteves Cardoso delicia-nos com uma prosa poética, descrevendo a chegada da Primavera e de tudo o que ela representa, com todos os seus signos e metáforas. O regresso das andorinhas, animal totémico da Cultura Portuguesa por excelência, deu mote a uma crónica bem mais profunda do que nos poderá à partida parecer. Vale a pena ler e analisar. Afinal, os mitos e tradições podem transformar-se, mas permanecem perenemente entre nós, tal como os ciclos da natureza, desafiando a imortalidade e o tempo.   

(Clicar para ampliar.)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A mensagem das andorinhas de Bordalo

Se há algo que nos domina e predomina na cultura portuguesa é o Amor, esse estranho e inexplicável sentimento descrito magistralmente por Luís Vaz de Camões, o Poeta entre os poetas, da seguinte forma:
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer; 
É um não querer mais que bem querer; 
É solitário andar por entre a gente; 
É nunca contentar-se de contente; 
É cuidar que se ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 
De Norte a Sul de Portugal, indo aos nossos arquipélagos e antigos territórios ultramarinos, encontrámos vestígios e reminiscências desse sentimento-essência constituinte do arquétipo português e da nossa memória colectiva. A cultura popular, pródiga na sua sublime forma de expressar o inexpressível, exterioriza esta realidade de um modo tão genuíno que se torna capaz de derrubar muros ou obstáculos intransponíveis pelos mais doutos intelectuais. Invoquemos a título de exemplo os famosos lenços de amor, tradicionais do belo Verde Minho. Simples na sua concepção, possuem uma força em potência de alcance inestimável, revelando-se autênticos pedaços de alma materializados de forma a poderem ser partilhados.
Não são raras as vezes em que a própria Natureza influi sobre o Homem, tornando-o axiomaticamente bom  e receptivo aos mais altos valores, como o Amor, Lealdade e Fidelidade. Tudo por um mero processo inconsciente de mímesis.

Andorinha de cerâmica proveniente da Fábrica de Faianças
Artísticas Rafael Bordallo Pinheiro
, nas Caldas da Rainha.

Ciente ou não dessa realidade metafísica e antropológica, Rafael Bordalo Pinheiro, em meados de 1891, iniciou na sua fábrica a produção de pequenas andorinhas em cerâmica que ele próprio desenhara. Uma peça que rapidamente integrou e povoou o artesanato e imaginário popular português.
Ave migratória que aquando do seu regresso a um determinado sítio procura construir o seu ninho sempre no mesmo local onde anteriormente habitara, a andorinha, por possuir um único parceiro ao longo da vida, assumiu um simbolismo conotado com valores como Lar, Família, mas sobretudo, Amor, Lealdade e Fidelidade. 
Desta forma, facilmente assimilável pela grei em virtude da sua própria identificação com a mensagem expressa, vulgarizou-se a troca de andorinhas cerâmicas entre os amantes, usadas não só como gesto  de amor ou troca simbólica, mas também como uma espécie de amuleto de harmonia, felicidade e prosperidade no lar e no seio da sempre sagrada família. 
Recuperemos por isso velhos hábitos, pois nunca é tarde demais para admirarmos o voo mágico das aves ou oferecermos uma andorinha a quem verdadeiramente amamos. A quem verdadeiramente queremos e nos completa.