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sexta-feira, 29 de março de 2013

À Paixão de Jesus Cristo

Enterro de Cristo, pintura portuguesa do séc. XVI da autoria de
Gregório Lopes.

O filho do grão rei, que a monarquia
tem lá nos céus e que de si procede,
hoje mudo e submisso à fúria cede
de um povo, que foi seu, que à morte o guia.

De trevas, de pavor se veste o dia,
inchado o mar o seu limite excede,
convulsa a terra por mil bocas pede
vingança de tão nova tirania.

Sacrílegio mortal, que espanto ordenas,
que ignoto horror, que lúgubre aparato!...
Tu julgas teu juiz!... Teu Deus condenas!

Ah! Castigai, Senhor, o mundo ingrato;
caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas,
também eu morra, que também vos mato.

Barbosa du Bocage.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Elegia de Luís Vaz de Camões para uma Sexta-Feira Santa

O Mártir da Cruz, aguarela de Manuel Tavares (1958).

Ó verdadeira Luz, justo Cordeiro, 
Jesus benigno, manso e piedoso, 
Filho do Padre Eterno verdadeiro! 
Que causa te moveu, Rei poderoso, 
tão escondida lá na mente eterna, 
a padeceres fim tão desonroso 
e deixar a mais alta e mais superna 
cadeira e vida por mais escura 
de quantas a mortal fama governa?

Ó preciosas chagas roxas, belas,
luminárias da noite tenebrosa,
de toda a luz privada das estrelas!
Ó Cruz bendita, cara, preciosa!
Contempla bem o passo que deram,
ó coroa de espinhos amargosa!
Vós, santos cravos, quando vos meteram,
à força de martelo, logo à hora
as serpentes e dragos se esconderam
O coração, a alma que não chora,
vendo-te, Redentor, com tantas dores,
em pedra viva de diamante mora.
Que não contemplais isto, pecadores,
e derramais mil lágrimas no dia, 
vendo o Senhor tão triste dos Senhores!

Vai, caminho de glória; vai, pombinha 
branca sem fel; bendita entre as mulheres;
vai, mãe da Lei da Graça, vai asinha
a o monte Calvário, se ver queres
ao teu precioso Filho antes de morto.
Desconsolada vai; vai, não esperes!
A o qual acharás bem sem conforto,
posto na Cruz, por partes mil chagado,
por nos dar sossegado e manso porto;
escarnecido, só, desamparado
entre dois malfeitores condenados, 
de fariseus e armas rodeado.

Mas vós, cruéis, perversos, cheios de ira,
com grita e escárnio, riso, tudo misto,
estais asidos todos na mentira,
dizendo em alta voz: - Se tu és Cristo,
desce-te dessa cruz em que estás posto! -,
não bastando os milagres que haveis visto.
E tu, Senhor, metido em tal desgosto,
estás sofrendo penas tão estranhas
com humilde, sereno e manso rosto. 
Ó algozes ingratos, de más manhas,
de troncos e penedos produzidos
nas mais altas e ásperas montanhas!
Que não vos humilhais, dizei, perdidos,
e não pedis perdão do que vos toca,
que, segundo é meu Deus, sereis ouvidos?
Pois Ele, com humilde rogo, invoca
a o Padre por vós benignamente,
deitando o fel e sangue pela boca,
dizendo: - Padre meu Omnipotente,
pedir-te quero, antes que me acabem,
que tudo isto perdoeis a esta gente,
pois o que fazem, certo, não o sabem.

Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sexta-Feira Santa

Ó Jesus! Do teu sangue, inocente e sem pecado,
por pagares o que havias prometido,
por nossa salvação fizeste um banho
em que se banhou e lavou
todo o mundo que era mesquinho.

E pelo teu sangue ele foi livrado.
Oh que tão grande mal, tanto bem aventurado,
pelo qual a minha guerra de todo foi finda.

Mestre André Dias (séc. XV).

Cordeiro Pascal (Agnus Dei) de Josefa de Óbidos (c.1670).