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sábado, 15 de julho de 2017

Meus Olhos Dolorosos

Teixeira de Pascoaes, ilustração de Haylane Rodrigues.

Meus Olhos Dolorosos

A lua sobre um píncaro escalvado,
Teus olhos sob a fronte que os domina;
O sol morrendo, ao longe, aureolado,
Num fundo de pinheiros e neblina;

Um rio manso, lívido, parado
Na concepção da Névoa; cristalina
Veia, onde nunca um raio afogueado
Matou a sede trágica e divina;

Aparições de Deus e da Beleza,
Sb formas de Cousas e Criaturas,
Perseguem os meus olhos que, às escuras,

Choram como as crianças, na Tristeza
Criadora que é a Virgem da Agonia,
A Mãe piedosa e triste da Alegria.

Teixeira de Pascoaes

domingo, 18 de outubro de 2015

Mais um ano de Nova Casa Portuguesa

A Nova Casa Portuguesa perfaz hoje meia década de existência e resistência na blogosfera. Numa época de dissolução temos sido uma força de construção e preservação daquilo que acreditamos ser o mais verdadeiro e autêntico dentro da nossa cultura e tradição. A síntese que procuramos fazer e entre o passado, presente e futuro traduz-se na velha máxima pascoalina de que «Portugal não é só o que foi, nem somente o que é, nem apenas o que há-de ser.» Cientes desta realidade asseguramos que continuaremos a nossa inalienável missão de amar aquilo que é mais importante: Portugal!
A todos os que nos têm seguido e acarinhado ao longo dos últimos 5 anos, deixamos os nossos mais sinceros agradecimentos, sempre na esperança de nunca defraudar todos aqueles que amam Portugal.

Esboço de Raul Lino.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

À conversa com Pascoaes no Café-Bar

E disse-lhe a saudade:
- Parte! Regressa, enfim, ao Paraíso!
Cultivarás aquela terra antiga
com tuas mãos, restituindo-a
ao primitivo e mágico esplendor.
Teixeira de Pascoaes em Marânus

(Clicar na imagem para ampliar.)

No próximo dia 12 de Setembro assinala-se o regresso de Teixeira de Pascoaes a um dos seus espaços predilectos na cidade de Amarante - o histórico Café-Bar. Trata-se da inauguração de uma escultura em tamanho real que homenageia um dos mais ilustres clientes que passaram por aquele estabelecimento localizado bem no coração da cidade de Amarante, junto ao icónico Mosteiro de S. Gonçalo.
Esta inauguração, com hora marcada para às 14:30, será antecedida da parte da manhã por uma mesa-tertúlia moderada por Sofia Carvalho, onde se destacam os nomes de Manuel Ferreira Patrício, António Feijó e Hermínia Vasconcelos Mota.
Esta actividade integrada no Triénio Pascoalino (2014, 2015 e 2017) tem entrada livre e é aberta a toda a comunidade.  

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pseudalopex: Arte e inspirações de Haylane Rodrigues

«Pela via de sempre cada passo é novo.»
Rodrigo Sobral Cunha em Visitação dos sóis

Quando a arte e o talento se aliam ao Amor todas as barreiras e fronteiras parecem esbater-se. Os mundos aproximam-se, até os contíguos, e desta cumplicidade nascem sonhos com um espírito de permanente comunhão, criando-se pontes até ao infinito. Enceta-se assim um caminho para a sublimação e superação da própria individualidade, através do qual a Verdade se manifesta pela seguinte tetralogia portuguesa: Saudade, Paixão, Amor e Glória. De resto, isto foi o que aconteceu com a ilustradora brasileira Haylane Rodrigues que, desde a sua aproximação da cultura portuguesa, em finais de 2013, se viu abraçar com a atávica paixão de quem, por intermédio do espírito e do coração, regressa à sua matriz primordial, redescobrindo-se.
Nascida em 1990, Haylane Rodrigues é natural do Estado da Paraíba, no Nordeste do Brasil. Apesar da precocidade com que se manifestou o seu talento, nunca equacionou a possibilidade de um dia poder enveredar por uma carreira artística. Autodidacta de formação, bebeu fortes influências nos domínios da Filosofia, História, Literatura, Poesia, Mitologia, Zoologia e tradições populares. Fortemente enraizada na tradição nordestina e na ideia de um Sertão ideal, através do qual recebeu claros ecos da cultura clássica e portuguesa, consagrou sempre o seu coração e a sua arte ao mais elevado e puro sentido da beleza. A sua arte, “bela, moral e armorial”, reaviva a centelha da tradição e da virtude incluída naquela simplicidade natural, apenas característica entre os que possuem o talento de bem-fazer.
Entre 2014 e o presente ano, Haylane Rodrigues tem vindo a realizar uma série de trabalhos votados à cultura portuguesa, em particular no âmbito do retrato, revisitando personalidades como Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Dalila Pereira da Costa, Carlos Eduardo de Soveral, entre outras. A sua notoriedade em Portugal advém desde logo das colaborações regulares com algumas publicações periódicas como, por exemplo, os jornais O Diabo e Diário do Minho, ou a revista Nova Águia, onde tem publicado alguns dos seus trabalhos. Tendo já ilustrado dois títulos do catálogo das Edições Réquila, as suas criações têm também figurado em inúmeros cartazes e convites para encontros ou eventos relacionados com a cultura portuguesa, ou o diálogo filosófico-cultural luso-brasileiro.
O crescente interesse desta artista pela cultura portuguesa, correspondido no interesse dos portugueses pela sua arte, abriu a possibilidade de expor a sua obra em Portugal, ainda durante este ano através da realização de duas exposições diferentes, previstas para as cidades do Porto e Lisboa. Até lá, poderemos acompanhar o trabalho de Haylane Rodrigues ou fazer encomendas, através do blogue do seu projecto Pseudalopex, visitável em http://pseuda-lopex.blogspot.com.

Templo de Diana, aguarela (2015). 

Sampaio Bruno, ilustração com arranjo gráfico de André Henriques (2014).

Teixeira de Pascoaes junto à Fonte dos Golfinhos, desenho a lápis (2014).

Fernando Pessoa, retrato em aguarela (2015).

Dalila Pereira da Costa, retrato em aguarela (2015).

Carlos Eduardo Soveral, retrato em aguarela (2015).


Mariana Alcoforado, retrato inacabado a lápis (2014). 

José Almeida, retrato em esferográfica (2014).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Guerra Junqueiro e a ideia de Pátria

Nas vésperas do ano em que se celebrarão os centenários dos livros Arte de Ser Português de Teixeira de Pascoaes e O Valor da Raça do António Sardinha, vale a pena debruçarmo-nos sobre a seguinte reflexão acerca da ideia de Pátria - e o amor que lhe devemos -, concretizada por Guerra Junqueiro nas suas Prosas Dispersas:
«A Pátria mais perfeita será a mais local, pelo amor à gleba, e a mais universal, pelo amor ao mundo.
O Meu amor à Pátria começa nas amizades do meu corpo ao ar que respiro, à água que bebo, ao pão que me alimenta, ao fruto que desejo, à flor que me embalsama, à luz que me deslumbra. Depois, vem o amor à minha casa, desde os avós aos netos, dos berços aos sepulcros. Depois, o amor à minha aldeia, - choupanas e cavadores, a igreja de Deus ao centro e o cemitério ao lado. Depois do amor à província, à região, à Pátria toda, - aos mortos, aos vivos e aos vindouros.
»
Guerra Junqueiro (1859-1923).

domingo, 26 de outubro de 2014

As Biografias no Pensamento Português dos séculos XIX e XX

«As cousas da Natureza tiveram, para mim, um grande encanto. Vivi-as, como se vive a dor ou o amor. Agora, só me interessam as almas: daquele campónio, a daquele mendigo, ou Napoleão em Santa Helena, Hamlet, diante de uma caveira, parodiando filosoficamente a atitude religiosa de S. Jerónimo; Lucrécio, primeiro poeta da morte, ou Paulo de Tarso, o maior poeta da vida e da loucura, faminto de Deus, emagrecido até ao esqueleto – esse fantasma que se apoderou da Humanidade.»
Teixeira de Pascoaes em S. Paulo

No corrente ano de 2014 celebram-se os primeiros 80 anos desde a publicação de S. Paulo, um livro que marcou toda uma transformação na obra do poeta amarantino Teixeira de Pascoaes. O seu abandono da poesia, trocado-a pelo texto biográfico e ensaístico, marcou a cultura portuguesa do século XX. Se as suas biografias não obtiveram grande acolhimento junto do público português, o mesmo não poderá ser afirmado em relação à sua aclamação além-fronteiras. De resto, foram as edições estrangeiras de obras como S. Paulo ou S. Jerónimo que levaram o autor português a ser proposto por duas vezes a Prémio Nobel da Literatura. 
Assim, partindo desta efeméride, o Instituto de Ciências da Cultura Pe. Manuel Antunes, em parceria com o CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), a Câmara Municipal de Amarante e a BNP (Biblioteca Nacional de Portugal), organiza entre 29 e 31 de Outubro o Congresso Internacional As Biografias do Pensamento Português dos Séculos XIX - XX (por ocasião dos 80 anos da publicação de S. Paulo). A abertura deste encontro terá lugar na Academia das Ciências de Lisboa, sendo que os trabalhos decorrerão na BNP.
Este congresso marca ainda o início das celebrações do triénio pascoalino. Em 2014, celebrando os 80 anos de S. Paulo; em 2015 os 100 anos da obra Arte de Ser Português; e em 2017, aproveitando-se os 140 anos do seu nascimento e os 65 anos da sua exaltação, o pensamento e a missão de Teixeira Pascoaes.    
Para mais informações, ou consultar o programa deste congresso, visite-se a página oficial deste encontro em http://congressobiografias-trieniopascoalino.blogspot.pt. A entrada será livre e aberta a toda a comunidade.

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terça-feira, 10 de junho de 2014

Camões, a Divindade tutelar da nossa Pátria!

Celebrar o 10 de Junho é celebrar Camões e celebrar Camões é celebrar a Pátria. A divinização do poeta da nossa gesta operou-se no coração e no espírito do nosso Povo de forma natural, conforme aconteceu também com D. Afonso Henriques, a Rainha Santa Isabel, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, ou D. Sebastião após o seu sacrifício em Alcácer Quibir. 
Camões foi um homem colectivo. O seu génio era maior do que tudo o resto que fazia dele apenas mais um homem entre os homens. Apercebemo-nos com no autor d'Os Lusíadas o sentido da singularidade transcendente, bem como da sagrada missão entregue por Deus aos grandes Poetas. 
Teixeira de Pascoaes, o velho sábio da montanha, percebeu-o bem, escrevendo nas páginas da revista Águia:  
«Camões é uma divindade portuguesa; a Divindade tutelar da nossa Pátria. Portugal tem vivido à sombra do épico imortal: é o único país cuja autonomia se tem firmado sobre o nome de um Poeta.
A sombra de Camões vigia as nossas fronteiras e ampara as nossas Colónias. É uma fortaleza espiritual e por isso indestrutível.
Camões é ainda o nosso ponto de contacto com a Humanidade, com a vida eterna, porque ele foi o supremo intérprete do génio aventureiro e descobridor. Vasco da Gama transfigurado em sonho, eis o Poeta d'Os Lusíadas - esse poema feito de ondas, espumas, névoas, tempestades... Neptuno reencarnou em Camões para escrever em verso heróico a sua autobiografia.
Os Lusíadas são os Evangelhos do Mar. O Mar é o nosso Livro de Orações. Ler Os Lusíadas é rezar o Mar...
» 
Luís Vaz de Camões num quadro do pintor
português José Malhoa.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Evocação de Sampaio Bruno

«A sabedoria foi a qualidade suprema de Sampaio Bruno, que se torna assim numa figura quase religiosa, intérprete dos sonhos do homem, enviada à nossa dolorosíssima ansiedade.»
Teixeira de Pascoaes em A Águia, vol. VIII. 

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Vulto maior da cultura nacional e autor de importantes obras como O Brasil MentalA Ideia de DeusO EncobertoPlano de Um Livro a Fazer (Os Cavaleiros do Amor ou A Religião da Razão)Teoria Nova da Antiguidade, entre outras, Sampaio Bruno foi, juntamente com Guerra Junqueiro, nos anos que marcaram a transição do século XIX para o XX, uma das personalidades intelectuais dominantes na cidade do Porto e no país.
Prestes a entrarmos no ano que antecede o centenário do seu desaparecimento, o MIL Norte anuncia uma evocação à memória deste importante intelectual português, a ter lugar na sua sede do Porto, já no próximo dia 4 de Dezembro, pelas 21h. O orador convidado será Afonso Rocha, autor da obra A Gnose de Sampaio Brunopublicada em 2009 pela editora Zéfiro
A entrada é livre!

domingo, 25 de novembro de 2012

Pensamento, Memória e Criação no Primeiro Centenário da Renascença Portuguesa (1912-2012)

«Renascer é regressar às fontes originárias da vida, mas para criar uma nova vida (...) O passado é indestrutível ; é o abismo, a treva, onde o homem mergulha as raízes do seu ser, para dar à nova luz do futuro a sua flor espiritual.»
Teixeira de Pascoaes em Renascença

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O Movimento da Renascença Portuguesa – que este ano celebra o seu centésimo aniversário – representou um dos principais esforços para uma refundação cultural de Portugal durante a primeira metade do século XX. A vasta intervenção deste movimento na sociedade portuguesa reflectiu, sobretudo através do seu órgão de expressão oficial, a histórica revista A Águia, a crença e a vontade expressa por uma significativa parte da elite intelectual nacional, de encontrar o caminho para uma outra república, distinta daquela implantada em 1910. Já então entendida como estrangeirada e longe de representar a tradição, os valores e desígnios históricos da pátria e raça portuguesas. O crescente interesse verificado por este movimento, assim como pelos inúmeros autores a ele associado, têm levado vários investigadores a estudá-lo, tanto em Portugal, como no estrangeiro, nomeadamente no Brasil e em Espanha, em particular na região da Galiza.
De modo a comemorar esta efeméride, terá lugar o Congresso Internacional Pensamento, Memória e Criação no Primeiro Centenário da ‘Renascença Portuguesa’ (1912-2012), a realizar-se entre os dias 29 e 30 de Novembro e o dia 1 de Dezembro, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), Universidade Católica do Porto e, por fim, na Casa das Artes de Amarante. Organizado pelo Grupo de Investigação Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, este colóquio é apoiado por uma ilustre comissão de científica, apresentando uma lista de oradores constituída por nomes tão distintos como António José de Brito, Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira, Paulo Borges, Joaquim Domingues, Celeste Natário, Ernesto Castro Leal, António Cândido Franco, Manuel Cândido Pimentel, Isabel Ponce de Leão, Miguel Real, José Almeida, Samuel Dimas, Renato Epifânio, Duarte Braga, entre outros.
Para inscrições, mais informações ou esclarecimentos, dever-se-á contactar o secretariado do congresso através do endereço de correio electrónico geci@letras.up.pt, ou através do telefone 22 60 77 105.

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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Curso sobre "O Movimento da Renascença Portuguesa"

«Adoremos o espírito, o nosso belo espírito; implantemo-lo na nossa terra, que é santa porque criou a saudade, como os desertos trovejantes da Palestina criaram Jeová, e os viçosos, harmoniosos vales gregos, criaram Orfeu e Apolo.»
Teixeira de Pascoaes em Renascença (o espírito da nossa Raça).

Arranca já amanhã o curso O Movimento da Renascença Portuguesa (1912-1932), promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e que conta também o apoio do SHIP (Sociedade Histórica para a Independência de Portugal). Esta acção de formação visa dar a conhecer, ao longo de 24 sessões, algumas das figuras nucleares de um dos principais e mais influentes movimentos culturais portugueses do século XX.
Contando com a colaboração de nomes conceituados como António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, Paulo Borges, Joaquim Domingues, Samuel Dimas, Celeste Natário, Duarte Ivo Cruz, António Cândido Franco, Cristina Nobre ou Paulo Samuel, este curso durará até Maio do próximo ano.
As inscrições poderão ser feitas na secretaria do SHIP, tendo um custo de 30€ para os sócios daquela instituição e do próprio Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, ou 35€ para o público geral.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A voz do ódio que transforma

Teixeira de Pascoaes.

Uma voz


O ódio é tétrica nuvem que goteja 
Por sobre as almas lágrimas d'amor! 
É tempestade que fulmina e que troveja, 
Para ficar o céu limpo de toda a dor!... 

Eu sou o Ódio que vai transformar corações 
Em chamas que libertam... 
Os meus rugidos são, às vezes, orações 
Que acordam a Justiça e a Verdade despertam! 

De mim, às vezes, nasce a cólera sagrada 
Que os cérebros exalta e os homens transfigura... 
Na minha grande voz que prega e brada, 
Há murmúrios de linfa entre a espessura!

Quando vou converter um palácio em ruínas 
Perto da margem verde dum caminho, 
É pra que nele cresçam flores divinas 
E pra que uma ave tenha onde fazer o ninho! 

Sou o Ódio tremendo, horrível, o colérico 
Esforço incendiário: 
E qualquer cousa eu sou de santo e de quimérico, 
De triste e solitário... 

Quem através de mim, num sonho, caminhar 
Encontrará o Amor. 
Das almas sou oriundo assim como o luar 
E sou filho da Dor!

Teixeira de Pascoaes em Jesus e Pã.

sábado, 28 de abril de 2012

Pascoaes/Risco: Do Saudosismo ao Atlantismo

«Deu-nos, a revelação da Saudade, o conhecimento da essência espiritual da nossa Raça, na sua íntima figura extática e nas suas exteriores e activas qualidades. Logicamente nos dará também o conhecimento do seu profundo sonho secular, cada vez mais despido da originária névoa encobridora e mais alumiado nas suas formas definidas.»
Teixeira de Pascoaes em Arte de Ser Português
«El héroe, pues nace em todos los tiempos, bajo diversas formas: héroe libre, caballero, soldado. No desarrolla el hombre en estos tiempos, seguramente, menos esfuerzo y coraje, que en los tiempos heroicos, pero han nacido nuevas virtudes y otras han muerto.»

(Clicar na imagem para ampliar.)

Inaugura-se hoje, pelas 19:00, na Fundación Vicente Risco, em Allariz (Galiza), a exposição Do Saudosismo ao Atlantismo: De Teixeira de Pascoaes a Vicente Risco. Procurando chegar ao grande público, esta exposição procura salientar a relação intelectual e pessoal entre Vicente Risco e alguns intelectuais portugueses ao longo da década de 1920. Partindo da correspondência e das dedicatórias de livros, esta mostra fará uma aproximação aos movimentos culturais portugueses, nomeadamente à Renasceça Portuguesa e ao seu órgão oficial de expressão, a revista A Águia. Tal como o próprio nome indica, Do Saudosismo ao Atlantismo: De Teixeira de Pascoaes a Vicente Risco, evidencia o saudosismo e a sua particular incidência na construção do pensamento risquiano no que concerne à questão do atlantismo.
Uma exposição a não perder na vizinha Galiza! 

(Clicar na imagem para ampliar o convite/programa.)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

À Minha Musa

Anjo da autoria de Teixeira de Pascoaes.

À Minha Musa

Senhora da manhã vitoriosa 
E também do crepúsculo vencido. 
Ó senhora da noite misteriosa, 
 Por quem ando, nas trevas, confundido. 

 Perfil de luz! Imagem religiosa! 
 Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido! 
 Corpo, que é alma escrava e dolorosa, 
 Alma, que é corpo livre e redimido. 

 Mulher perfeita em sonho e realidade. 
 Aparição Divina da Saudade... 
 Ó Eva, toda em flor e deslumbrada! 

 Casamento da lágrima e do riso; 
 O céu e a terra, o inferno e o paraíso, 
 Beijo rezado e oração beijada. 

 Teixeira de Pascoaes em Senhora da Noite.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Sagrada Família

«Dentro da casa paira a divindade da Família. A velha lareira é um Santuário com as imagens dos Avós. A Lembrança prende-nos às suas almas, e a Deus, por intermédio delas.»
Teixeira de Pascoaes em Arte de Ser Português.

O fogo da lareira enquanto metáfora para a inextinguível chama
dos sagrados laços de sangue.

Apenas porque alguma coisas se destinaram a a ser eternas... Assim seja.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Revisitar Sóror Mariana Alcoforado

«Amo-te mil vezes mais do que a vida e mil vezes mais do que penso.
Como me és querido e como me és tyranno!
Não me escreves...
Não pude cohibir-me de te dizer isto, outra vez!
Vou recomeçar, e o official que se vá embora.
Que importa? Que parta...
Escrevo mais para mim do que para ti.
Busco apenas aliviar este coração.
Também, o comprimento d'esta carta vae metter-te medo...
Não a lerás.
Que fiz eu para ser tão desditosa?!
E porque me envenenaste assim a vida?
Ah porque não nasceria eu bem longe d'esta terra.
Adeus, perdoa-me.
Não me atrevo já a pedir-te que me ames.
Vê a que me reduziu o meu destino!...
Adeus.
»
Excerto da Segunda carta de amor, atribuída a Sóror Mariana Alcoforado. 

Segundo reza a história, o destino de Mariana Alcoforado fora desde cedo traçado por vontade dos seus pais que, de acordo com os costumes da época, falando-se em concreto de um período balizado entre o séc. XVII e o séc. XVIII, a destinaram à vida conventual. 
Já membro da Ordem Clarissas, mais por imposição familiar do que por verdadeira vocação mística ou espiritual, ela acaba por apaixonar-se pelo Marquês de Chamilly, um militar francês, de passagem por Portugal para apoiar a causa da Casa de Bragança, já no final da Guerra da Restauração, em meados de 1667 e 1668, quando este participava em manobras junto do convento de Beja onde se encontrava encerrada.
O envolvimento entre os dois tornou-se inevitável, resultando num terrível escândalo, em virtude da posição da família Alcoforado, da qual fazia parte Mariana. Temeroso do resultado da sua conduta, socialmente imprópria segundo os valores da época, o cavaleiro francês regressa apressadamente a casa, abandonando Mariana após alegados problemas familiares, falseando-a com promessas de um pronto regresso e reencontro.
É no seguimento desta separação de proporções flagelares que nascem as cinco pretensas cartas de Sóror Mariana Alcoforado que, durante séculos, comoveram e comovem ainda até os mais duros corações. Movida primeiramente pela esperança no reencontro, Mariana, vê-se invadida pela incerteza das longas noites em claro, na sequência do silêncio do seu amado Chamilly, até ao momento em que se mentaliza do abandono a que foi por ele sujeita.
Apesar das paixões que estas cartas inspiraram, um pouco por toda a parte, existem algumas dúvidas quanto à sua autenticidade, desde logo colocada em causa por autores como Jean-Jacques Rousseau, Alexandre Herculano ou Camilo Castelo Branco. Não obstante, as cartas de amor desta freira portuguesa contribuíram para a sua mitificação, não apenas num contexto nacional, mas também num plano ibérico e europeu, tal foi a expansão e identificação pessoal e colectiva com a dor da suposta autora e o seu profundo mal de amor. Vejamos, por exemplo, o que disse Teixeira de Pascoaes, em 1952, sobre o papel de Sóror Mariana na constituição mítica e espiritual d'a Alma Ibérica, na sua última conferência pública antes de falecer:
    «O osso ibérico deu o esqueleto de Cervantes. A carne lusitana deu o coração de Mariana e  o misticismo pantaísta de Frei Agostinho da Cruz. (...) Mas se quisermos obter a sentimentalidade peninsular temos que acrescentar a Santa Teresa a Sóror Mariana. São as duas mais belas expressões do amor. Mariana é o amor humano à força de ser divino. Teresa é amor divino à força de ser humano.»
Foi este carácter metafísico que, aliado ao aspecto romântico do amor proibido entre a monja portuguesa e o cavaleiro franco, ajudou a imortalizar e enraizar também  na cultura popular a figura de Sóror Mariana Alcoforado. Foram vários os escritores, dramaturgos, poetas, músicos e cineastas que se inspiraram nesta figura incontornável da cultura portuguesa. Até o próprio polémico realizador Jess Franco, ao escrever e dirigir o seu filme Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne, se baseou, ainda que de uma forma excessivamente livre, naquela que foi sem dúvida uma das mais famosas freiras portuguesas.

 
Trailer do filme de 1977 Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne,
realizado por Jess Franco.

Entre 18 de Outubro e 30 de Novembro, a companhia de teatro Seiva Trupe - Teatro Vivo, levará a cena no Teatro do Campo Alegre, a peça A Freira Portuguesa, da autoria da dramaturga italiana Maricla Boggio e inspirada nas famosas Cartas de Amor ao Cavalheiro de Chamilly de Sóror Mariana Alcoforado. Esta peça conta com a encenação de Claudio Hochman e com a interpretação dos actores Jorge Loureiro, Adriana Faria, Ana Oliveira, Cristina Cardoso, Filipa Duarte e Maria Mata, constituindo-se uma excelente oportunidade para revisitarmos esta história de paixão proibida e o mito que dela nasceu.

Teatro do Campo Alegre
Rua das Estrelas
4150-762 - Porto

Horário das apresentações
Terça-Feira a Sábado - 21:45
Domingo - 16:00

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ser Português segundo Pascoaes

«Ser português é também uma arte, e uma arte de grande alcance nacional, e, por isso, bem digna de cultura.O mestre que a ensinar aos seus alunos, trabalhará como se fora um escultor, modelando as almas juvenis para lhes imprimir os traços fisionómicos da Raça lusíada. São eles que a destacam e lhe dão personalidade própria, a qual se projecta em lembrança no passado, e em esperança e desejo no futuro. E, em si, realiza, deste modo, aquela unidade da morte e da vida, do espírito e da matéria, que caracteriza o Ser.O fim desta arte é a renascença de Portugal, tentada pela reintegração dos portugueses no carácter que por tradição e herança lhes pertence, para que eles ganhem uma nova actividade moral e social, subordinada a um objectivo comum superior. Em duas palavras: colocar a nossa Pátria ressurgida em frente ao seu Destino.As Descobertas foram o início da sua obra. Desde então até hoje tem dormido. Desperta, saberá concluí-la... ou, melhor, continuá-la, porque o definitivo não existe.»
Teixeira de Pascoaes em Arte de Ser Português.

Lançado em 1915, escrito em apenas quinze dias e dedicado à mocidade, a Arte de Ser Português apresenta-se ainda hoje como a mais bela psico-biografia da Pátria Portuguesa. Nela, o escritor amarantino, príncipe espiritual do alto Marão, principal teorizador da saudade enquanto traço exclusivo da cultura e pensamento nacional, descreve de uma forma bastante clara e directa a essência e potência do Ser português enquanto colectivo espiritual que nos envolve e carinhosamente abraça, com o mesmo amor e fervor com que os braços dos bons pais envolvem os seus filhos.
O desígnio do autor, expresso no seu texto introdutório a esta obra, apontava para o desejo da sua adopção pelos estabelecimentos escolares a fim de preservar e promover a disciplina do amor à Pátria Portuguesa. Assim, tendo em conta o actual estado da Nação, nomeadamente em relação à Educação e à falta de amor próprio, cultivada por interesses externos desvirtuadores dos reais interesses portugueses, atendendo ao conteúdo programático do livro, resta-nos aqui oportunamente relembrá-lo pela sua actualidade e urgente divulgação.
Na edição mais recente de Arte de Ser Português, editada pela Assírio & Alvim e distribuída também em formato de bolso pela Biblioteca Editores Independentes, o seu tardio prefaciador, Miguel Esteves Cardoso, afirmou categoricamente nas primeiras linhas do seu texto que o Portugal e os portugueses de Pascoaes não passavam de meras ficções criadas pelo autor. Resta-nos a nós, portugueses de alma e coração, darmos provas do contrário. Estamos ainda a tempo de nos conciliarmos com a Pátria Mãe, voltando a dignificar e honrar o seu nome. Como diz o proverbio popular: «Bom filho a casa torna».

Auto-retrato de Teixeira de Pascoaes.