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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Como o Natal nos tece

Natus est nobis Salvador Mundi!

Como o Natal nos tece

Diz-se Natal como poema, 
com versos novos que vão nascendo, 
diz-se como criança
que em nós vai crescendo, 
claridade e saudade, 
esperança de Nova Idade. 
Diz-se Natal como caminho 
por onde vamos, 
como versos que habitamos,
como poema que nos tece.
E se tão claro é o dia
que nos acontece,
é eterno o tempo
que hoje nos aquece.

José Valle de Figueiredo

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Cruzeiro Seixas: homenagem ao último surrealista português

Perdemos Cruzeiro Seixas. O último sobrevivente do grupo de surrealistas de Lisboa partiu, ontem, a menos de um mês de completar 100 anos. Poeta, pintor, ilustrador e escultor, foi um sempre um artista completo apesar da sua genuína teimosia rejeitando qualquer um desses epítetos.
Para trás fica a sua obra, as viagens pelo mundo português e uma singular visão sobre a nossa natureza. De modo a homenageá-lo, nada melhor do que partilharmos um dos seus poemas mais evocativos dessa sua complexa relação com os mistérios da patriosofia.  

Cruzeiro Seixas (1925-2020).

Trota-se por certo de uma sala de operações 
até ao infinito 
pudicamente flor e crina adolescente 
ou seja simplesmente nuvem com árvores erectas 
mãos com algemas de prata 
lajes tumulares 
que na sua ignorância me recusam. 
Vê-se logo que nada sabem das formas que a noite toma 
descendo e subindo 
nos dois sentidos da luz. 
Na verdade 
quem é que não sente palavras-aranhas na alma? 
Quem é que não usa os recantos das janelas góticas 
para ali esconder o nevoeiro? 
Depois dos arbustos 
os bustos cobertos pela neve do futuro, 
isto no tempo em que as palavras 
ainda pairavam sobre o dilúvio. 
Silenciada a esfera armilar 
é com esferográfica que te envio as cores reinventadas 
prisioneiras entre destroços da mais alta antiguidade 
entre o céu e o inferno visíveis 
atravessados de veias 
e de rios, 
de luzes míticas 
de loucas viagens 
embalsamadas. 

Cruzeiro Seixas

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Aljubarrota

Batalha de Aljubarrota representada numa iluminura do séc. XV.

Aljubarrota

I

Vivo perfil da Pátria, na beleza
Da tua austera e cândida expressão,
Vinca-te um jeito amargo de tristeza,
Perturba-te uma estéril comoção…

D'antes, uma alegria andava presa
Ao resplendor da tua perfeição,
E até na hora longa da incerteza
Tinhas a luz do sonho e da ambição!

Via-te o mundo ― sobr'o mundo inteiro...
E a bruma do horizonte se alongava
A inquieta limpidez do teu olhar.

Perfil d`águia num píncaro altaneiro!
― Um rumor de asas fortes perpassava,
De polo a polo, irmão da voz do Mar…

II

Amanheceu a tua eternidade
Na batalha que a história não olvida ―
― Como do fogo surge a majestade
Dum bronze eterno em que se esculpe a vida!

Lágrimas, sangue, dor, gritos, saudade,
― A terra ainda as relembro, comovida!...
Mas rompia mais clara a claridade
Da tua graça heróica ou insofrida!...

― Viessem horas como aquelas horas
Em que o ingénuo sangue nas auroras
de perdida no sangue das acções!

E em que, no beijo que de ti baixava,
O desejo da Pátria exasperava
O puro ardor de nobres corações…

João de Barros

sábado, 15 de julho de 2017

Meus Olhos Dolorosos

Teixeira de Pascoaes, ilustração de Haylane Rodrigues.

Meus Olhos Dolorosos

A lua sobre um píncaro escalvado,
Teus olhos sob a fronte que os domina;
O sol morrendo, ao longe, aureolado,
Num fundo de pinheiros e neblina;

Um rio manso, lívido, parado
Na concepção da Névoa; cristalina
Veia, onde nunca um raio afogueado
Matou a sede trágica e divina;

Aparições de Deus e da Beleza,
Sb formas de Cousas e Criaturas,
Perseguem os meus olhos que, às escuras,

Choram como as crianças, na Tristeza
Criadora que é a Virgem da Agonia,
A Mãe piedosa e triste da Alegria.

Teixeira de Pascoaes

terça-feira, 23 de maio de 2017

Nossa Senhora na Literatura Portuguesa

Portugal foi ao longo da sua História uma Pátria marcada pelo signo de Cristo, tendo sido escolhida desde cedo, por vontade Divina, para tornar-se numa terra dedicada à Nossa Senhora. Ao longo dos séculos a presença da Virgem tem marcado os desígnios e os trilhos espirituais da nossa Pátria e do nosso Povo. Esta importante presença, em tudo definidora da Fé dos portugueses, encontra na religião, mas também na poesia, literatura e tradição popular o seu testemunho vivo.
Assim, aproveitando a comemoração do Centenário das Aparições de Fátima, o ciclo Foz Literária, dedica a sua sessão de amanhã à presença de Nossa Senhora nas letras portuguesas. Contando com a as presenças de José Valle de Figueiredo, Cuca Sarmento, Inês Taveira, Irene Costa Marques, Leonor Trigueiros e Rosa Leal, este encontro está marcado para as 18:30, no Forte S. João da Foz, no Porto. 
 A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.  

(Clicar na imagem para ampliar.)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

I Jornadas de Cultura Portuguesa

Criada em 2006, por iniciativa de Arnaldo de Pinho e Sophia de Mello Breyner Andresen, a Cátedra Poesia e Transcendência tem organizado inúmeros encontros, colóquios e conferências, dinamizando o meio académico e cultural português. Afecta ao Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa, a Cátedra de Sophia - como também é conhecida -, possui um carácter multidisciplinar, procurando estudar as relações entre a Poesia e o fenómeno da Transcendência, tanto em autores nacionais como estrangeiros.
No próximo Sábado, pelas 10:30, no campus da Foz da Universidade Católica Portuguesa, a Cátedra de Sophia organizará as suas I Jornadas de Cultura Portuguesa. Um evento que se espera poder vir a tomar uma periodicidade anual. Esta primeira edição, dedicada à memória de António Pedro, escritor, encenador e artista plástico falecido em 1966, contará com as participações de Henrique Manuel Pereira, José Rui Teixeira, José Pedro Angélico, Pedro Pereira, Teresa André, Fernando de Castro Branco, Jorge Teixeira da Cunha, entre outros. 
A entrada é livre e aberta a toda a comunidade. 

(Clicar na imagem para consultar o programa.)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ideia e Ritmo na Poesia de Junqueiro

«Poeta fortemente emocionado pelo momento que vive, a sua obra não podia deixar de ter uma larga expressão social e revolucionária e a expressão filosófica que se continha no pensamento social e revolucionário do seu tempo, simultaneamente romântico e realista. Quando toma bem consciência de tudo isso, é que Junqueiro surge e domina todas as possíveis influências, elaborando-as com o poder admirável do seu génio; e acaba por ser ele mesmo o poeta, entre todos os seus contemporâneos, que maiores influências exerceu na poesia portuguesa.»
Amorim de Carvalho em Guerra Junqueiro e a sua obra poética. 

(Clicar na imagem para ampliar.)

Júlio Amorim de Carvalho, administrador da Casa Amorim de Carvalho irá apresentar na próxima Terça-Feira, dia 18 de Outubro, no Porto, uma conferência subordinada ao tema Ideia de Ritmo na Poesia de Junqueiro.
Nesta avaliação estética da obra de um dos principais poetas da História da Literatura Portuguesa, serão abordados temas como: o “século poético português”, a contextualização mental da crítica modernista, a transmutação do pensamento discursivo para o poético, a simbolização e o simbolismo junqueirianos, a métrica na poesia de Junqueiro, entre outros. No final desta sessão, haverá ainda espaço para se discutir sobre o que fazer no centenário da morte do poeta.
A apresentação terá lugar no auditório da Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Pinto Mesquita Carvalho, situado na Rua de Dom Hugo 15, junto à Sé do Porto, às 18h. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Nova Águia n.º 18

Há poucos dias atrás foi divulgada a capa do 18.º número da revista Nova Águia, correspondente ao 2.º semestre de 2016. 
Este número inclui uma série de textos dedicados a Ariano Suassuana, resultantes das apresentações levadas a cabo num colóquio promovido em sua homenagem pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em Abril de 2015. Para além das habituais rubricas, destacam-se também dois blocos evocativos. Um dedicado a Vergílio Ferreira, assinalando o centenário do seu nascimento; outro consagrado a Delfim Santos, no cinquentenário da sua morte.
A capa desta edição conta, uma vez mais, com a colaboração da artista brasileira Haylane Rodrigues, autora do desenho de Ariano Suassuna que figura na capa do 18.º número desta publicação.
A apresentação da Nova Águia está agendada para o próximo dia 21 de Outubro, às 18:00, na BNP (Biblioteca Nacional de Portugal), em Lisboa.

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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Ainda a homenagem a Fernando Guedes

Pela sua dimensão e impacto causado junto da vida cultural portuguesa, certas figuras jamais são recordadas e evocadas demasiadas vezes. Apesar de já aqui termos publicado uma brevíssima nota sobre o recente falecimento de Fernando Guedes, não poderíamos deixar de partilhar um texto publicado na edição desta semana do semanário O Diabo, sobre este nosso ilustre editor, poeta e intelectual. 
Trata-se de um excelente artigo de Vasco Silva, acompanhado por um testemunho de Miguel Castelo-Branco e uma ilustração de Haylane Rodrigues. Uma bela homenagem a juntar a um outro interessante texto, da autoria de Carlos Maria Bobone, intitulado Fernando Guedes, o homem da cultura vencida, publicado no Observador.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fernando Guedes, o Editor (1929-2016)

Custa ver partir os velhos mestres. Faleceu ontem, em Lisboa, Fernando Guedes, um dos principais editores portugueses do século XX. 
Nascido na cidade do Porto, em 1929, foi fundador da Editorial Verbo e esteve ligado ao aparecimento de importantes revistas culturais como a Távola Redonda, com António Manuel Couto Viana, David Mourão-Ferreira, Alberto Lacerda e Fernanda Botelho, ou a Tempo Presente, com António José de Brito, Goulart Nogueira, Caetano de Melo Beirão e, uma vez mais, Couto Viana. Entre outras obras e colecções que marcaram a história da edição em Portugal, Fernando Guedes foi o grande responsável pela criação da Enciclopédia de Cultura Luso-Brasileira, assim como pela famosa colecção económica Biblioteca Básica Verbo - Livros RTP que dotou muitos lares portugueses com algumas obras fundamentais da literatura e da poesia mundiais. 
Homem vertical e integral, foi também poeta, crítico de arte, ensaísta e historiador de destaque. O prestígio alcançado ao longo do seu percurso cultural e profissional levou a sua fama além-fronteiras. Participou em inúmeros encontros internacionais, recebendo vários prémios, galardões, distinções e condecorações. Pensador e intelectual "não-conforme", ocupou internacionalmente os cargos de presidente da Federação de Editores Europeus e de presidente honorário da União Internacional de Editores. Patriota alheio aos "ventos da História", jamais se deixou sujeitar ao suposto monopólio cultural da esquerda, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais, mesmo nos piores momentos. 
A Cultura Portuguesa sentirá a sua falta com saudade e pesar! 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Paisagem Portuguesa

«A paisagem portuguesa parece esperar por nós há muitos séculos», escreveu o poeta presencista Carlos Queiroz (1907-1949) em Paisagem Portuguesa, obra que será amanhã, terça-feira, dia 24, apresentada ao público numa nova edição. E se, como recorda o poeta, «Montesquieu disse que os portugueses descobriram o Mundo mas desconhecem a terra onde nasceram», dar-lhes a conhecer a essência dessa terra foi um desígnio que Carlos Queiroz assumiu como missão. 
A beleza com que ele no-la descreve é sublime: «O perfume balsâmico dos fenos e das resinas dos pinheiros, a própria maresia - que chega a ser sensível em pontos longínquos do litoral - dão à atmosfera da paisagem portuguesa encanto extraordinário, talvez inigualável.» Ou ainda: «Brando e harmonioso, fulgente de Sol e refrescado por suaves brisas, o litoral português possui estâncias para todas as estações do ano, climas para todos os temperamentos, quadros e costumes para todos os gostos e curiosidades.» 
A presente edição está enriquecida com um ensaio do filósofo e escritor Rodrigo Sobral Cunha. A apresentação, marcada para as 18:00 de amanhã no Palácio de Seteais, em Sintra, estará a cargo do cineasta António Pedro Vasconcelos, do filósofo Joaquim Domingues e do próprio Rodrigo Sobral Cunha que, em 2014, organizou o Colóquio Nacional sobre Raul Lino.

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Nossa Senhora, ao luar...

Nossa Senhora e o Menino Jesus, ilustração de Almada Negreiros.

Nossa Senhora, ao luar...

Nossa Senhora, ao luar...
toda cheiinha de luz,
põe-se a embalar, a embalar
o seu Menino Jesus.

A Nossa Senhora canta
para o adormentar;
mas a Mãe, que o mundo espanta, 
tem vontade de chorar.

Entanto o lindo Menino
quer a lua, a rabujar...
Sente que o reino divino
é lá na terra do luar!

Afonso Lopes Vieira em País Lilás, Desterro Azul.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Vida e Obra de Fernanda de Castro (1900-1994)

Celebra-se amanhã, dia 8 de Dezembro, o 115.º aniversário do nascimento de Fernanda de Castro. Mulher de António Ferro e mãe de António Quadros, Fernanda de Castro foi uma importante figura das letras portuguesas. Para além do seu vasto legado literário plasmado nas áreas da poesia, teatro, romance, ou literatura infantil, foi ainda uma personalidade bastante activa na sociedade portuguesa, onde se destacou nas áreas da cultura e beneficência. Injustamente esquecida pelo grande público, a sua memória tem vindo a ser salvaguardada pela Fundação António Quadros.
De modo a homenagear esta autora nas vésperas da data do aniversário do seu nascimento, partilhamos a emissão de 11 de Novembro de 2010 do programa O Jardim da Literatura, da rádio Antena 1, inteiramente dedicado à sua vida e obra.

Vida e Obra de Fernanda de Castro (1900-1994).

sábado, 17 de outubro de 2015

Olhos Negros

A editora discográfica Vidisco começou recentemente a publicar no seu canal de Youtube vários vídeos de bandas que fazem parte do seu extenso catálogo. Entre essas bandas encontram-se os incontornáveis Maio Moço, um grupo que muito se enquadra no espírito da Nova Casa Portuguesa.
Não obstante o longo período de inactividade no qual esta banda mergulhou, a dimensão do seu legado mantém-os sempre vivos na memória e no coração de todos os que amam Portugal e os seus mais belos "romances". O esforço empregue por este colectivo na recuperação e revitalização da nossa música, cultura e tradição histórica é bastante notório no seu longo repertório.
O tema que hoje aqui apresentamos - Olhos Negros - constitui uma excelente transposição musical de um dos mais belos poemas de Almeida Garrett.       

Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores ...
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp'rança,
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim ...
Nunca mais dizem que não.

Vídeo dos Maio Moço para o tema Olhos Negros.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

As águas limpídas de lavar o silêncio

O Rio Vez abrindo-se à sua terceira margem.

O Vez

Cansado de ensinar solfejo às aves
(na íntima luz dos ramos boiam ninhos),
teu nome é um murmúrio entre as folhas
de poema que compus para inventar-te
prisioneiro infindamente nómada
da tua lenta guirlanda fugitiva
de ti mesmo tecida quando passas,
às primeiras manhãs, polindo areia,
dedos de bruma em alúde antigo,
som de um cantar de amigo junto às fontes
onde os cervos dos montes vão beber,
inacabado rio, adolescente
lapidário de campos, céus, miragens
cuja água azula o voo das libélulas
água tão limpa de levar silêncio
para ouvir sementes e, ao luar, estrelas…

Carlos da Cunha em Os Silêncios de Eurídice.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Portugal e a Pérsia: Diálogos e Afinidades

«... D. Sebastião podendo ter sido visto posteriormente pelos mouros ainda residentes em Portugal, como o XII Íman esperado, tal Selo da profecia. E ainda por ele, detendo igualmente todo o seu estatuto escatológico. Assim, entre os sebastianistas portugueses e os mouros esperançosos do XII Íman, se realizando uma mesma peregrinação interior salvífica. Assim também, Bandarra, D. João de Castro, Padre António Vieira, Bruno e Teixeira de Pascoaes, surgindo neste enfoque como Amigos de Deus.»
Dalila L. Pereira da Costa em Contemplação dos Painéis.

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No próximo Sábado, dia 11 de Julho, pelas 21:30, no Ateneu Comercial do Porto, Pedro Sinde, figura maior da mais jovem geração da Filosofia Portuguesa, autor de obras como O Velho da Montanha, A Montanha Mística, Terra Lúcida, O Canto dos Seres, Sete Sábios Portugueses, entre outras, irá apresentar uma conferência subordinada ao tema Portugal e a Pérsia: Diálogos e Afinidades. Da experiência colhida numa longa viagem ao Irão levada a cabo em 2014, o pensador português conduzirá os presentes através de um itinerário inscrito num espaço situado para lá dos meros domínios histórico-geográficos. Partindo de um pensamento próprio, revisitando e apoiando-se também nas teses de outros autores que se inscrevem na mesma tradição filosófica e espiritual, como é o caso de Sampaio Bruno, Fernando Pessoa, Garcia Domingues, António Telmo, Dalila Pereira da Costa, ou Pinharanda Gomes, Pedro Sinde analisará sob várias perspectivas esta incontornável e indiscutível afinidade existente entre Portugal e a Pérsia.
Esta sessão contará ainda com a participação especial do colectivo poético Maldizentes que se encarregará de fazer algumas leituras relacionadas com a ambiência deste encontro. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.

domingo, 10 de maio de 2015

Mesmo por entre o mais denso nevoeiro se avista o nosso sol!

Guilherme de Faria (1907-1929).

Manhã de Nevoeiro

Manhã de Nevoeiro... A névoa apaga
E cega o meu olhar...

Mas doce, a minha voz rompe a cantar,
E sobe, da toada branda e vaga,
À exaltação da profecia:

A névoa apaga e cega o meu olhar...
Mas para além, é o sol dum novo Dia.

Guilherme de Faria em Desencanto (1929).

terça-feira, 5 de maio de 2015

Urgente é a Poesia

«A poesia tem um mistério - e esse é, para a maioria das pessoas sensíveis o próprio encantamento da sensitividade, pelo qual se lhes revela o mundo encantado da imaginação.»
Eudoro de Sousa em Origem da Poesia e da Mitologia 
e outros ensaios dispersos.

A civilização portuguesa, apesar de única e singular, integra-se também na grande tradição europeia. Se pensarmos na nossa raiz matricial, tomámos consciência do poder e da força criadora da poesia. Cantando o mito - esse substantivo sinónimo de origem -, a poesia cumpre de igual modo uma função regenerativa, religando cada comunidade com a sua tradição primordial, de modo a poder-se construir um futuro coeso e integral. 
Desperta para esta realidade e necessidade, a cidade do Porto interage com os seus habitantes como um organismo vivo, obrigando-os a vivê-la enquanto parte desse cenário de reencontro com o primordial canto. Assim, ao longo da presente semana, entre esta Terça-Feira e a próxima Sexta, os finais de tarde de quatro livrarias portuenses serão animados por leituras de poesia. A primeira livraria a receber estes encontros informais será a Leitura Bulhosa, com a participação do actor Nuno Meireles, seguindo-se a Poetria, com  o poeta João Luís Barreto, o alfarrabista Lumière, com a presença do diseur Isaque Ferreira e, por fim, a loja da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, onde poderemos contar com a intervenção de José Valle de Figueiredo. 
A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.   

(Clicar na imagem para ampliar.)

sábado, 25 de abril de 2015

O sonho e o grito no contexto da decadência democrata

Amorim de Carvalho escreveu, após o 25 de Abril de 1974, uma obra emblemática intitulada O Fim Histórico de Portugal. Para este pensador português, o final do Estado Novo e consequente queda do Império Português desencadeou uma série de acontecimentos que levariam à tão famigerada "morte de Portugal", ansiada por todos os falsos portugueses. Porém, esta morte jamais se verificou, pois a força vital da Pátria é sempre luminosa e em tudo superior face às antagonistas forças de dissolução.
A III República, imposta a Portugal e aos Portugueses pela mesma canalha do 5 de Outubro de 1910, foi logo na sua génese um nado-morto, um cadáver adiado que, ano após ano, demonstra ser incapaz de procriar. O plano para enterrar Portugal e o Império falhou no seu primeiro objectivo, contudo, os danos causados pelo sucesso do segundo tornaram-se, para muitos, um prelúdio do fim. Contudo, alguns portugueses não se rendem e, desde aquela negra madrugada de Abril, muitos foram os que continuaram, ou retomaram, a luta e o sonho de reerguer de Portugal, devolvendo-lhe todo o seu esplendor. 
Esse sonho é aquele mesmo grito sentido e cantado por Rodrigo Emílio, num dos seus muitos poemas de combate:

Abril, Abril foi o mês...
À hora mais desabrida...
(- Que silêncio que se fez, 
desde então, na minha vida!...)

Mas o silêncio, suponho, 
foi a razão por que vim
com este sonho: este sonho,
aos gritos dentro de mim!

O fim dos cravos colhidos será,
inevitavelmente, o mesmo da democracia.