Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Uma Sonata de Frei Jacinto do Sacramento

Já há muito estava por publicar neste espaço o seguinte vídeo com uma interpretação anónima de uma das poucas peças de Frei Jacinto do Sacramento que escaparam ao Terramoto de Lisboa. Pouco se sabe sobre a vida deste compositor, exceptuando que terá nascido na capital portuguesa, por volta de 1712, desconhecendo-se por completo o ano da sua morte. Com apenas 16 anos tomou votos, ingressando na Ordem de São Paulo. Estudou música e composição, tornando-se num excelente cravista e organista. 
Não obstante todas as contrariedades e contingências, a sua fama como um dos melhores cantores e compositores portugueses do século XVIII fez caminho até os nossos dias. Do seu legado subsiste um par de toccatas e sonatas para cravo e órgão, como esta que aqui é partilhada. O suficiente, talvez, para podermos formular uma pequena ideia do seu génio, quase perdido nas páginas mais conturbadas da nossa História.


Sonata em Ré Menor de Frei Jacinto do Sacramento.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Fado: uma retrospectiva histórica

Muito discutirão que o Fado não é fenómeno representativo de todo o Portugal, porém a verdade e o coração dizem-nos precisamente o contrário. Para além de um género musical, o Fado é também comunidade, identidade, cultura, literatura e poesia. É a nossa língua em contacto profundo com as nossas esperanças e desesperanças, com os amores e desamores de indivíduos e comunidades que compõem a realidade material do nosso corpo pátrio. Mas, mais do que tudo isso, o Fado é uma «estranha forma de vida», uma evocação da alma colectiva portuguesa. É um mistério que nos acompanha e para o qual muitos procuraram encontrar respostas. 
Este curto vídeo que hoje aqui apresentamos coloca em retrospectiva os últimos 200 anos do Fado. Um exercício de divulgação e sistematização histórica que, por certo, ajudará muitos a descobrir a História do Fado.

sábado, 16 de julho de 2016

Quadro de Honra

«As bandas que encerram este livro são herdeiras desse tempo. Noutra época, com vantagens e desvantagens, mostram que os problemas e os desafios não terminaram, nunca terminaram.»

A arte marginal e os círculos artísticos underground constituem uma parte importante do imaginário cultural das sociedades urbanas contemporâneas. Nestes meios, tanto se edificam pontes entre subculturas distintas, como se afirma a própria identidade de determinados grupos. De resto, esta é uma realidade bastante presente no mundo da música onde, tantas vezes, perdemos o rumo da História em virtude da natureza efémera dos fenómenos que a compõem. Quadro de Honra representa uma compilação de relatos recolhidos na primeira pessoa, visando preservar uma parte significativa dessas memórias.
Importa, antes de tudo, identificarmos o que classificamos aqui de underground e “música alternativa”. Quadro de Honra, obra colectiva assinada pela revista Loud!, publicada pela Saída de Emergência, compila cerca de 30 entrevistas com alguns dos nomes mais emblemáticos da música pesada nacional. Estamos perante um repositório de memórias que nos remete para mais de três décadas de sonoridades extremas que vão do punk ao hardcore e do rock ao metal, aqui entendido nos seus variadíssimos subgéneros. Os colectivos musicais cujas entrevistas compõe esta obra são os protagonistas de uma aventura fantástica e revolucionária, desafiadora do gosto e mercados dominantes.
Ao longo de dezenas de edições, a revista Loud! - referência em Portugal em matéria de jornalismo musical votado às sonoridades mais extremas -, foi efectuando um trabalho de arqueologia musical sob a forma de entrevistas. Levando a cabo um processo de revitalização da memória que passava pela evocação de alguns dos discos mais marcantes da música pesada nacional, esta publicação periódica foi reunindo nas suas páginas os relatos obtidos juntos dos músicos intervenientes neste capítulo menos conhecido da História da Música em Portugal. De clássicos como Mão Morta, Mata Ratos, Peste & Sida, Censurados, ou Tarantula, passando por bandas como Moonspell, Heavenwood, Bizarra Locomotiva, Sacred Sin ou Ramp, não deixam de aparecer entre os testemunhos recolhidos outros nomes menos conhecidos do grande público como, por exemplo, Decayed, Thormentor, Sirius, Corpus Christii, Desire, Morbid Death, In Tha Umbra, Inhuman, Genocide, Grog, Holocausto Canibal, entre outros.
Conforme tão bem descreve o escritor José Luís Peixoto no prefácio a esta obra: «Chegará um dia em que tudo o que constitui este instante será passado.» Assim, podemos afirmar que Quadro de Honra representa o testemunho de um certo passado ainda bastante presente. Um repositório de ecos de glórias passadas que insistem em permanecer vivas, por via de um diálogo perene entre um passado que se afirma e um presente que se esfuma.
Escrito em bom português pré-AO90 - escolha que muito louvámos -, este livro encontra-se enriquecido pela parafernália iconográfica que o documenta, da qual não poderíamos deixar de destacar as ilustrações de Pedro Silva. Trata-se de uma obra imprescindível para a biblioteca de qualquer melómano interessado numa visão etnomusicológica daquilo a que Jorge Lima Barreto chamou, genericamente, de “mmp" – música moderna portuguesa.

Editado em Maio deste ano, Quadro de Honra documenta
três décadas de underground português.

domingo, 1 de novembro de 2015

1.º de Novembro

«...o intenso laço moral que é o culto dos Mortos...»
António Sardinha em O Valor da Raça

É de conhecimento geral que os portugueses tendem a confundir, como que propositadamente e por motivos meramente práticos, o Dia de Todos dos Santos com o Dia dos Fiéis Defuntos. Um tipo de oposição que nos é natural face à natureza teórica das coisas, mesmo que estejamos a referir-nos a preceitos teológicos ou religiosos. E sim, o português é um Povo de Fé. Sempre foi e sempre será, não obstante a natureza selvagem e heterodoxa que caracteriza, por vezes, o axioma da sua alma colectiva. 
Esse espírito indomável que tantas vezes tende, talvez por aversão ao tédio e à fervente vontade de viver, a reinventar os modos de ver e projectar a nossa tradição, acabando por renovar-se constantemente, mostrando a vitalidade incomum do nosso ethos face ao de outros povos. Lembremos, por exemplo, as especificidades do nosso primeiro modernismo que mais não fez do que procurar reintegrar Portugal no seu próprio eixo espiritual, reaproximando a nossa Pátria da sua ancestral  e quase milenar tradição.
Com efeito, voltando à vivência espiritual do Dia dos Fiéis Defuntos no Dia de Todos os Santos, recordamos um eco da mais antiga e profunda religiosidade portuguesa, associada ao culto dos mortos. Um eco forte e contemporâneo que replica um grito atávico cuja origem recente é, no mínimo improvável. Porém, assim são os desígnios de Deus e dos princípios teleológicos da nossa Pátria. O delírio mecânico-futurista patente no tema 1.º de Novembro, da autoria dos bracarenses Mão Morta, reflecte a existência de uma luz que anima até as mais improváveis almas. O ambiente retratado pela letra desta música, pesado e lúgubre, transmite a persistência salvífica da nossa tradição num mundo que lhe é cada vez mais hostil. Afinal, entre os modernos ritmos do nosso quotidiano, subsiste ainda aquela alma portuguesa, dotada de uma doçura humana quase transcendente, nada indiferente à dor causada por uma solidão contrabalançada pela saudade do porvir.
O amor e a saudade que sentimos na dor causada pela falta dos nossos mortos não é mais do que aquele grito surdo de querermos perpetuar aquém-vida e além-morte. São as glórias, as paixões e memórias vividas juntas dos nossos ente-queridos. Preservar estes momentos de diálogo com o passado são a prova de que existe esperança no futuro. Por este motivo, é importante conservarmos esta vivência, mesmo que a música se ouça triste, na solidão dos dias chuvosos. 

1.º de Novembro

Um traço, um berço
Dois destinos que se cruzam na lonjura da distância
Erva fálica pelo caminho
Distúrbios, subúrbios
Automóveis ferrugentos desenhando o horizonte
Os paralelos asfixiam a alma
Solidão, saudade
Rumagens, romaria aos queridos defuntos
Carcaças abandonadas ao passado
Lágrimas, fábricas
Tempo invernoso sublinhando a ausência
A música ouve-se triste
Solidão!
Saudade!
Romagens!
Romarias!
Solidão!
Saudade!
Queridos!
Defuntos!


O tema 1.º de Novembro, dos Mão Morta, figurou primeiramente no LP compilação
À Sombra de Deus, editado pela Câmara Municipal de Braga em finais da década de 1980.

sábado, 17 de outubro de 2015

Olhos Negros

A editora discográfica Vidisco começou recentemente a publicar no seu canal de Youtube vários vídeos de bandas que fazem parte do seu extenso catálogo. Entre essas bandas encontram-se os incontornáveis Maio Moço, um grupo que muito se enquadra no espírito da Nova Casa Portuguesa.
Não obstante o longo período de inactividade no qual esta banda mergulhou, a dimensão do seu legado mantém-os sempre vivos na memória e no coração de todos os que amam Portugal e os seus mais belos "romances". O esforço empregue por este colectivo na recuperação e revitalização da nossa música, cultura e tradição histórica é bastante notório no seu longo repertório.
O tema que hoje aqui apresentamos - Olhos Negros - constitui uma excelente transposição musical de um dos mais belos poemas de Almeida Garrett.       

Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores ...
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp'rança,
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim ...
Nunca mais dizem que não.

Vídeo dos Maio Moço para o tema Olhos Negros.

sábado, 6 de junho de 2015

Cantar o fado de vivermos o que sonhamos

Saudades

Das janelas da cidade
Amei-te como ninguém
Foram tempos sem idade
Mas quem teve, hoje não tem...

Saudades, triste fado
É tempo de te amar
Saudades, cantam o fado
É tempo de voltar

Das janelas ao teu lado
Tão antigas, que eu amei,
Vou cantar este meu fado
De viver o que sonhei

Saudades, triste fado
É tempo de te amar
Saudades, cantam fado
É tempo de voltar

Saudades, triste fado
É tempo de te amar
Saudades que serão fado
Se o tempo nos faltar


Sétima Legião numa apresentação na RTP em 1987.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Odýsseia

M-PeX, o projecto musical a solo de Marco Miranda, está de regresso às edições com mais um surpreendente trabalho - Odýsseia. Conforme nos diz o próprio título, este álbum duplo inspira-se em duas odisseias, aparentemente distintas: a de Homero e a de Kubrik. Trata-se de um registo que evoca musicalmente a essência de duas idades do Homem, procurando numa primeira parte, mais acústica - Prologus -, encontrar essa matriz mais arcana do nosso fundo civilizacional clássico; seguida de outra parte - Epilogus -, onde a guitarra portuguesa se cruza com a electrónica, numa fusão de inspiração tradicional e futurista.   
Composto e produzido por Marco Miranda, Odýsseia contou na sua gravação com as participações de André Coelho, no baixo, e do DJ X-Acto. O grafismo ficou, uma vez mais, a cargo de Marco Madruga. De resto, assistimos neste registo à repetição de um elenco que já anteriormente havia colaborado em conjunto nas gravações de M-PeX, conseguido excelentes resultados.  
Apresentada ao público em plena época natalícia, esta edição poderá ser descarregada gratuitamente através da página oficial da editora digital Enough Records. Um presente a não perder, dedicado a todos os que se interessam pela nova música portuguesa!

Odýsseia é o tema homónimo do último álbum de M-PeX.

sábado, 20 de setembro de 2014

IV Festival Internacional de Polifonia Portuguesa

Setembro ficou marcado pelo regresso do Festival Internacional de Polifonia Portuguesa. Organizado pela Fundação Cupertino de Miranda, este evento conhece este ano a sua quarta edição, propondo a continuação de um dos mais interessantes projectos de divulgação daquele que será, provavelmente, o mais esplendoroso dos períodos da produção musical portuguesa.

Coro da Cappella Musical Cupertino de Miranda na companhia de Arianna Savall,
na Igreja de S. Francisco (Porto).

Com a criação em 2009 da Cappella Musical Cupertino de Miranda, a Fundação Cupertino de Miranda, sediada em Vila Nova de Famalicão, dava forma a um ambicioso projecto de recuperação e divulgação da época dourada da Polifonia Portuguesa. Retomando a nossa tradição musical dos séculos XVI e XVII, esta iniciativa foi fomentando o estudo de alguns dos principais compositores portugueses, devolvendo a sua música aos espaços para os quais a mesma havia sido composta, ou seja, os espaços religiosos.
Não obstante a importância para a música europeia de nomes como Pedro Escobar, Pedro de Cristo, Estevão de Brito, Manuel Cardoso, Duarte Lobo, Pedro de Araújo, entre outros, é inegável o esquecimento em que os mesmos se foram precipitando junto do grande público. Esta iniciativa da Fundação Cupertino de Miranda tem vindo por isso a revelar-se de grande importância para a recuperação de uma dimensão algo esquecida e até mesmo negligenciada do nosso património espiritual e artístico.
Tendo iniciado no passado dia 18 de Setembro, o Festival Internacional de Polifonia Portuguesa prolonga-se até ao próximo dia 27 de Setembro. Tal como nas anteriores edições, o festival mantém a sua natureza itinerante, passando este ano pela Igreja de S. Victor (Braga), Igreja de S. Francisco (Porto), Igreja Beneditina de Nossa Senhora do Terço (Barcelos), Igreja Matriz de Vila do Conde, Mosteiro de S. Martinho de Tibães (Braga), Igreja de S. Gonçalo (Amarante), Igreja de S. Lourenço (Porto), Igreja do Bom Jesus (Braga) e Igreja de Sta. Maria de Landim (Vila Nova de Famalicão).
Ao lado do sublime coro da Cappella Musical Cupertino de Miranda actuam, em diferentes datas e locais, John Butt (organista) e Arianna Savall (harpista e cantora), compondo o contingente de músicos estrangeiros convidados para esta edição. Para além do habitual seminário, assegurado este ano pelas intervenções dos investigadores José Manuel Tedim, Gonçalo Vasconcelos e Sousa, José Ferrão Afonso, Eugénio Amorim e José Abreu, o programa do festival prevê ainda uma leitura de um Sermão do Padre António Vieira, lavada a cabo pelo actor Luís Miguel Cintra, já na próxima Quinta-Feira, dia 25 de Setembro, na Igreja de S. Lourenço (Porto).
À semelhança da edição anterior, a organização do Festival Internacional de Polifonia Portuguesa preparou um interessantíssimo catálogo, profusamente ilustrado, do qual não podemos deixar de destacar a grafia pré-acordo ortográfico adoptada na sua edição. Sugerindo uma delicada viagem aos domínios dos sentidos, inspirada por um diálogo interarte e transdisciplinar, este volume contém uma descrição dos espaços por onde passará a edição deste ano do festival, programa de actividades, notas biográficas sobre os músicos, bem como os textos apresentados no seminário integrante do programa do certame.
Com todas as actividades de acesso livre e gratuito, o Festival Internacional de Polifonia Portuguesa assume-se, a cada ano, como um dos mais importantes eventos da alta cultura portuguesa, sendo já uma referência a nível nacional e internacional. Para consultar o programa, ou obter mais informações, recomendamos uma visita à página http://festivalpolifoniafcm.wix.com/ivfipp.

A beleza e o mistério da Polifonia Portuguesa patente no Kyrie et Gloria 
do compositor Manuel Cardoso. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Auto da Primavera: Uma peça esquecida de Luiz de Freitas Branco!

«Ao terminar a leitura do conto O Inverno durava há muito, coincidindo com a conversa havida com António Sardinha e João Cabral do Nascimento, veio-me a inspiração de um trabalho repassado de misticismo e de um fôlego, numa noite, escrevi o Auto da Primavera, que foi publicado em 1919, com música e meu primo o Professor Luiz de Freitas Branco.»
Visconde do Porto da Cruz na introdução do Auto da Primavera.

Capa da segunda edição do Auto da Primavera (1950).

Há alguns anos atrás, de visita à Escola Superior de Dança, escutamos estupefactos um professor de música afirmar, com bastante arrogância e presunção, que não tratava os compositores portugueses nas suas aulas por estes serem menores e não apresentarem obras musicalmente relevantes. Numa atitude que é transversal a praticamente todos os domínios da arte em Portugal, este professor deixou bem patente a ignorância e ignomínia com que a cultura nacional é hoje tratada em grande parte das nossas instituições.
A música erudita em Portugal não só existe, como constitui uma parte significativa do nosso património cultural. Não foi apenas com a idade de ouro da polifonia portuguesa que a cultura lusíada manifestou musicalmente o seu génio e esplendor. Tanto em períodos anteriores, como posteriores, chegando até ao nossos dias, a música portuguesa acompanhou ao longo dos séculos as várias tendências e revoluções, contribuindo em muitos casos para o desenvolvimento dos sucessivos movimentos de ruptura e vanguarda. Isto sem nunca perder a sua identidade e respectivas especificidades.
Infelizmente, nos últimos quarenta anos, à imagem de outras dimensões da cultura nacional, contrariando o nome de um interessante projecto de recuperação do nosso património musical, somos obrigados a afirmar que a música portuguesa não tem gostado de si própria. Nas primeiras páginas da obra seminal Música Minimal Repetitiva, o saudoso musicólogo Jorge Lima Barreto apontou o dedo a três factores que estariam na base desta triste realidade. A inépcia dos contratos culturais dos sucessivos governos; a influência dos mass media, controlados por uma “musoburocracia” que, de um modo inclemente, serve os empresários discográficos dependentes dos interesses estrangeiros; e por fim o próprio público, levado a desconfiar e repudiar tudo o que é português. Conforme podemos testemunhar quotidianamente, a análise destes três pontos é essencial para percebermos o esquecimento ao qual está votado o nosso património musical.
Luiz de Freitas Branco, renomada personalidade do panorama cultural português do século XX, constitui um dos muitos incontornáveis exemplos que nos permitem e obrigam a contrariar comentários infelizes como os daquele pobre professor, repetidor das directrizes antipatriotas do sistema. Compositor, músico e professor, Luiz de Freitas Branco fez parte dos seus estudos na Alemanha. Em Portugal manteve-se sempre próximo do Integralismo Lusitano, convivendo com Alberto Monsaraz, António Sardinha e Hipólito Raposo. Entre os seus alunos no Conservatório de Lisboa, do qual chegou a ser subdirector, constam nomes como Joly Braga Santos ou Maria Campina. Contudo, foi na área da composição musical que deixou a sua marca, através de uma extensíssima obra cujo inquestionável valor o imortalizou na História da Música.
No entanto, também os nossos compositores mais célebres possuem trabalhos menos conhecidos que aguardam o momento de serem redescobertos. É o caso do Auto da Primavera, obra «repassada de espiritualidade», acompanhada pela música de Luiz de Freitas Branco, escrita em meados de 1919 pelo seu excêntrico primo, o Visconde do Porto da Cruz. Nascida de um repto lançado por António Sardinha e João Cabral do Nascimento, esta obra pitoresca de inspiração místico-religiosa suscita a curiosidade de todos quanto se deleitam ao mergulhar num típico quadro romântico de inícios do século XX. Resta-nos hoje a virtude de aguardar pela possibilidade de voltarmos a poder ouvir esta peça, há décadas esquecida.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Entrevista com Gerhard Hallstatt no seu regresso a Portugal

Em vésperas do seu regresso a Portugal, onde irá participar na edição de 2014 do Festival Entremuralhas, Gerhard Hallstatt, mentor do projecto musical Allerseelen, concedeu uma interessante entrevista ao semanário O Diabo. Entre as memórias das suas viagens por Portugal e das amizades que aqui foi construindo, o austríaco - músico, escritor e aventureiro -, revelou a sua afinidade pela cultura portuguesa, situando-a na sua conhecida mundividência europeia.
Vale a pena ler esta entrevista e assistir ao concerto de Allerseelen que terá lugar já no próximo dia 30 de Agosto, no Castelo de Leiria. Não percam!

(Clicar na imagem.)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Ruy Coelho: Mostra sobre o espólio de um compositor

«La musique a besoin d'une dictature.»

A mostra Ruy Coelho: o espólio de um compositor encontra-se patente
ao público na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) entre 4 de Julho e
4 de Outubro de 2014.

Conforme o apanágio das sociedades contemporâneas, os génios criadores e outras personagens intemporais das nossas comunidades são muitas vezes incompreendidas e proscritas da História. Ora por se encontrarem além do seu tempo, ora devido às mais abjectas variantes da mesquinhez humana. Em vésperas do centenário da revista Orpheu, importa rever algumas dessas injustiças de que foram alvo os mestres da nossa vanguarda.
Patente ao público na BNP, entre os dias 4 de Julho e 4 de Outubro, a mostra Ruy Coelho (1889-1986): o espólio de um compositor visa recuperar esta singular figura do panorama musical português do século XX. Tão incómodo como genial, Ruy Coelho foi sendo definido historicamente pelos seus antagonistas, quase sempre com recurso à mentira, ocultação, deturpação e desinformação. Esta mostra procura proporcionar, através do espólio do compositor, doado à BNP em meados de 2011, um novo olhar, mais autêntico, sobre a sua vida e obra.
Edward Luiz Ayres d’Abreu, o pianista e investigador responsável por esta mostra, afirmou: «Quanto mais descubro Ruy Coelho, mais vejo como é odiável o que lhe fizeram e o que lhe fazem. Odiável é pouco. O abismo entre a qualidade da sua obra e o quanto é conhecida é o abismo mais infame, grotesco, boçal, pérfido que jamais vi.» De facto, o epíteto de “compositor do regime”, associando-o ao espectro político do Estado Novo e à nossa direita radical, bem como a inveja e a incapacidade do statu quo em lidar com o pioneirismo precursor de grande parte da sua obra, acabaram por condicionar a sua exposição e afirmação nos anais oficiais da História da Música Portuguesa.
Nesta mostra dedicada ao compositor, a segunda promovida pela BNP desde 2011, podemos encontrar vários elementos integrantes do seu espólio, entre manuscritos autografados e cópias, materiais de orquestra, impressos da sua obra musical, bem como programas de sala, recortes de imprensa, fotografias, correspondência, cartazes, entre outros documentos e objectos pessoais. Uma visita a esta pequena exposição permite-nos traçar um rápido itinerário pelas suas ligações aos meios culturais e artísticos de Portugal e do estrangeiro. Da sua passagem pelo Conservatório Nacional, onde foi aluno de António Taborda, Marcos Garin, Tomás Borba e Júlio Neuparth, passado pela sua estadia em Berlim e Paris, onde estudou com Engelbert Humperdinck, Max Bruch, Arnold Schoenberg e conviveu com Paul Vidal. De volta a Portugal sublinham-se os contactos com Teófilo Braga, Alexandre Reys Colaço, a sua cumplicidade com a geração de Orpheu, em particular com Almada Negreiros, José Pacheko e António Ferro, assim como a sua aproximação ao ideário da Renascença Portuguesa ou a personalidades como António Corrêa d’Oliveira, Afonso Lopes Vieira, Eugénio de Castro, Júlio Dantas, entre outros.
O compositor Ruy Coelho representa um dos casos mais assombrosos entre a união da tradição e a precocidade da modernidade no âmbito da música erudita do século XX. Um génio português de expressão mundial à espera de ser redescoberto na BNP.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

José Campos e Sousa: O regresso do trovador!

«Meu caro Rodrigo,
É mesmo verdade!
Tu, melhor do que ninguém, sabes que passaram dez anos, Não é muito tempo, principalmente para um poeta imortal como tu, que vive agora noutra dimensão.
»
José Campos e Sousa na nota introdutória ao seu disco
José Campos e Sousa canta Rodrigo Emílio.

Capa do mais recente álbum de José Campos e Sousa.

O presente ano de 2014 remete, qualquer bom português, para uma dupla homenagem a Rodrigo Emílio. Desde logo pela comemoração dos 70 anos do seu nascimento, mas também pela passagem da primeira década sobre a data da sua exaltação. José Campos e Sousa, reconhecido músico e compositor português foi sempre, para além de amigo e camarada, um profundo admirador da obra poética de Rodrigo Emílio. O seu génio e profundo talento musicais revelaram-se por isso um importante contributo para o imortalizar e ecoar do épico legado do nosso poeta soldado.
O disco José Campos e Sousa canta Rodrigo Emílio, recém-editado pela Companhia Nacional de Música, traz-nos de volta o melhor timbre do nosso último trovador que, desta feita, revisita velhos versos do nosso poeta, já anteriormente gravados, assim como outros poemas que agora se apresentam pela primeira vez musicados. Álbum intimista, dispondo apenas de guitarra e voz, constitui uma viagem aos diversos sóis, em torno dos quais gravitava o universo poético de Rodrigo Emílio. Este trabalho surge desta forma dividido em seis partes distintas: Deus, Pátria, Rei, Amor, Fado, Fim. Acompanhado por um trabalho gráfico de grande beleza estética, este disco sintetiza a comunhão perfeita entre a poesia e a música.
Em Portugal, conhecida “Pátria de poetas” na qual «Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões», impõe-se o regresso ao cultuar dos poetas autênticos enquanto homens colectivos. Desiderato esse que José Campos e Sousa cumpre, uma vez mais, de forma exemplar, dando de igual modo a conhecer Portugal aos portugueses, reconciliando-os com a sua cultura e tradição.
Este álbum encontra-se disponível para venda na loja da Companhia Nacional de Música (Rua Nova do Almada, n.º 62 – Lisboa), ou através do contacto directo com José Campos e Sousa via correio-electrónico (largodocarmo@gmail.com). Uma edição a não perder!

Combate, poema de Rodrigo Emílio musicado por José Campos e Sousa.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Saudade de ter Saudade!

Desfado

Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste

Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande certeza de não estar certa de nada

Ana Moura interpreta o Desfado.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O regresso da Banda do Casaco

Banda do Casaco em meados de 1978.

A lendária Banda do Casaco está de regresso e com ela três novas edições de luxo que celebram os 40 anos da sua fundação. Assim, no próximo dia 25 de Novembro chegará às lojas uma compilação com 16 dos grandes êxitos do grupo, intitulada 40 Anos de Som, bem como duas caixas onde se poderá encontrar a discografia integral da Banda do Casaco, contendo os seus sete álbuns, remasterizados este ano por José Fortes; faixas extras e inéditas; o DVD Banda do Casaco ao Vivo, com gravações de concertos em 1975, 1977 e 1984; telediscos e actuações na televisão; e ainda o CD Origens, com gravações de outros projectos como os Musica Novarum, Daphene, ou Family Fair que antecederam a criação da própria Banda do Casaco. 
A compilação com o melhor da Banda do Casaco contará com um alinhamento onde figuram temas célebres como: A Cavalo Dado, Morgadinha dos Canibais, País: Portugal, Malfamagrifana, Estranha Força, Salvé Maravilha, Alcateia II, Consilação, Dono da Noite, entre outros. Quanto ao trabalho trabalho gráfico desta edição, é desde já sabido que a capa contará com uma ilustração da autoria do incontornável Carlos Zíngaro.
Formados em 1974 por António Pinho, Luís Linhares, Nuno Rodrigues e Celso de Carvalho, este grupo foi responsável pela gravação de importantes trabalhos como Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios (1975) ou Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos (1977). O carácter seminal da Banda do Casado, um dos mais brilhantes e originais projectos do seu tempo, será certamente um motivo mais do que suficiente para atrair atenção de qualquer apreciador de música portuguesa, constituindo estas edições uma oportunidade soberana para reunir todos estes importantes documentos, ilustrativos de um dos últimos grandes períodos criativos da nossa cultura popular. A não perder!

Teledisco do tema Enterro do Tostão.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Kardinal, o novo EP de M-PeX!

M-PeX é o nome do projecto a solo de Marco Miranda. Uma mente criativa que busca a sua inspiração algures entre a ciência e a tradição, numa experiência materializada musicalmente através de um harmonioso casamento entre a electrónica e o fado. Exímio virtuoso da guitarra portuguesa, instrumento que aprendeu desde cedo a tocar com o seu avô, conta já com uma longa carreira, preenchida com concertos, gravações de álbuns e diversos EP, bem como produções, remisturas e outras colaborações várias.    
O seu mais recente EP - Kardinal -, mescla uma vez mais a tradição portuguesa com a música electrónica, num encontro que congrega também outras sonoridades como o nu-jazz, ou o hip-hop. Produzido pelo próprio Marco Miranda, este trabalho contou ainda com as participações de André Coelho, no baixo, e do DJ X-Acto, tendo o grafismo ficado a cargo de Marco Madruga.
Esta edição pode ser descarregada gratuitamente através da editora digital Enough Records. A não perder!

Vídeo de apresentação de Kardinal.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Fado, Saudade e Mistério

«No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segredo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião.»
Fernando Pessoa em Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional

O Fado e a Saudade constituem dois elementos identificadores da Alma Portuguesa. Não estando obrigatoriamente relacionados, o casamento entre ambos os sentimentos, ou categorias do Ser, incorporam uma parte importante da nossa cultura. A sua origem perde-se na alvorada dos tempos, alimentando as arcanas raízes da nossa personalidade colectiva, contribuindo definitivamente para o animar do grande e misterioso génio português. 
Como o próprio nome indica, o mais recente livro de Rémi Boyer, intitulado Fado Saudade & Mystery e prefaciado por Kátia Guerreiro, aborda exactamente esta problemática, associando-a ao Amor de Portugal. A sua apresentação será feita hoje, dia 24 de Outubro, pelas 18:30, na FNAC do Colombo, em Lisboa. Esta sessão de lançamento contará com a presença do autor e dos seus editores, cabendo as honras de apresentação a Rodrigo Sobral Cunha.
A entrada é livre.

(Clicar na imagem para ampliar.)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Daft Punk, Portugal e o Fascismo

«Guillaume Emmanuel "Guy-Manuel" de Homem-Christo (Paris, 8 de Fevereiro de 1974) é um músico francês, celebrizado enquanto elemento dos Daft Punk, juntamente com Thomas Bangalter. É bisneto do escritor português Francisco Manuel Homem Cristo (Lisboa, 5 de Março de 1892 — Roma, 12 de Junho de 1928), mais conhecido por Homem Cristo Filho. Notável intelectual do seu tempo, foi um grande defensor das correntes nacionalistas que conduziram ao fascismo italiano, do qual era fervoroso admirador. Numa entrevista à revista Rolling Stone, Guy-Manuel afirmou que o seu bisavô é descrito pelos historiadores como "o primeiro autêntico e indisputável fascista português" e um amigo pessoal de Benito Mussolini. "Conheço-o apenas de algumas fotografias, naturalmente". Homem Cristo Filho faleceu na sequência de um acidente de automóvel às portas de Roma. Mussolini prestou-lhe um funeral com todas as honras, mandando erigir um pequeno monumento com o epitáfio: "Cidadão de Roma, no espírito e na fé".»
Texto originalmente publicado em Dissidente.Info.


Há já algum tempo que o nome de um dos elementos pertencentes aos mundialmente aclamados Daft Punk levantava algumas suspeitas acerca da sua descendência. Conhecendo-se as raízes portuguesas de Guy-Manuel de Homem-Christo, faltava-nos confirmar se o seu apelido provinha de facto de uma descendência do nosso escritor, polemista e pensador - Homem Cristo Filho. Precocemente desaparecido em 1928, num acidente de viação, este conhecido precursor do fascismo em Portugal, amigo pessoal de Benito Mussolini, foi mesmo, segundo confirmou a equipa do Dissidente.Info através de uma entrevista dada pelo próprio Guy-Manuel de Homem Christo à revista Rolling Stone, seu bisavô.
Esta é apenas uma curiosidade, nada mais do que isso, mas que poderá contribuir para o reavivar da memória de um importante vulto do nosso modernismo que, infelizmente, como quis o destino, partiu cedo demais.


Vídeo do tema Around The World, um clássico dos Daft Punk retirado
do álbum Homework, lançado em Janeiro de 1997. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Concerto comemorativo do 10 de Junho

«Eis aqui (...) o Reino Lusitano, onde a terra se acaba e o Mar começa; (...) Esta é a ditosa pátria minha amada...»
Luís Vaz de Camões em Os Lusíadas

(Clicar na imagem para ampliar.)

10 de Junho, dia sagrado no qual se celebra a Pátria, o Amor incondicional que lhe devemos e a graça que recebemos por a ela pertencermos. Um dia no qual lembrámos os nossos antepassados que, lado a lado com os nossos maiores, trabalharam e lutaram arduamente, vertendo o sangue, o suor e as lágrimas que fertilizaram esta nossa terra, dando origem a toda uma gloriosa e imortal gesta.    
Evocando honrosamente toda a nossa tradição, o jovem músico e musicólogo Filipe Cerqueira apresentar-se-á para um concerto de piano solo inteiramente dedicado a Portugal e à Cultura Lusíada. Esta invocação ritual será em honra do grande génio da Língua Portuguesa, Luís Vaz de Camões, do Dia Nacional de Portugal, dos heróis combatentes que por nós verteram apaixonadamente o seu sangue e pelas comunidades além-fronteiras desta Nação do V Império. O recital visa também promover a divulgação da poesia portuguesa, integrando-se no projecto de divulgação da obra para piano solo do compositor Joaquim Gonçalves dos Santos.
O concerto terá lugar no próximo dia 9 de Junho, véspera do Dia de Portugal, pelas 21:30, realizando-se  na sala Teresa de Macedo da ESMAE (Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo), no Porto. O programa contemplará vários exemplos musicais para tecla oriundos de diversas épocas estilísticas da História da Música Portuguesa. 
A entrada é livre e aberta a todos os membros da comunidade interessados em se associar a esta celebração.

terça-feira, 5 de março de 2013

Os 55 anos de carreira de Simone de Oliveira

Simone de Oliveira é, tal como Amália Rodrigues, uma personalidade que representa a alma e o carácter feminino do povo português. Elemento sintetizador da tradição e do lado bom da modernidade, a artista portuguesa celebra este ano os seus 55 anos de carreira com um novo disco. Provavelmente cantado mais com o coração do que com a voz, este registo marca sem dúvida alguma um ponto de reflexão acerca da vida e a carreira artística de uma lutadora e amante da vida.
A SIC Notícias passou recentemente uma pequena entrevista com a eterna diva portuguesa. Vale a pena conhecer a sua história e a visão sobre a nossa sociedade, assim como o modo crítico com que olha para actualidade nacional.