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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Camões, Os Lusíadas e a Identidade Nacional

Em vésperas de mais um Dia de Portugal, o semanário O Diabo publicou três interessantes páginas que sintetizam a relação daquele que foi o maior poeta de todos os tempos - Luís Vaz de Camões -, com a sua Pátria e a identidade do seu povo. Hoje poderá parecer estranho o facto do Dia de Portugal estar associado à figura de um poeta, sendo que se perdeu entre nós esse elo entre essa figura colectiva e o povo que ela canta e eterniza. Porém, o culto dos poetas sempre foi algo bastante enraizado na tradição portuguesa. Uma vivência tão mística quanto cultural que provém já desde tempos que remontam aos alvores da nacionalidade. 
Quanto ao autor da obra épica Os Lusíadas, ele serviu sempre como factor de união entre diferentes facções político-ideológicas, desde que elas comungassem um mesmo fundo: o incondicional amor a Portugal. Talvez por esse motivo o 10 de Junho seja entre os chamados feriados civis aquele que é celebrado de uma forma mais intensa. 
Temos tudo quando temos Portugal! Viva Portugal!

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terça-feira, 10 de junho de 2014

Camões, a Divindade tutelar da nossa Pátria!

Celebrar o 10 de Junho é celebrar Camões e celebrar Camões é celebrar a Pátria. A divinização do poeta da nossa gesta operou-se no coração e no espírito do nosso Povo de forma natural, conforme aconteceu também com D. Afonso Henriques, a Rainha Santa Isabel, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, ou D. Sebastião após o seu sacrifício em Alcácer Quibir. 
Camões foi um homem colectivo. O seu génio era maior do que tudo o resto que fazia dele apenas mais um homem entre os homens. Apercebemo-nos com no autor d'Os Lusíadas o sentido da singularidade transcendente, bem como da sagrada missão entregue por Deus aos grandes Poetas. 
Teixeira de Pascoaes, o velho sábio da montanha, percebeu-o bem, escrevendo nas páginas da revista Águia:  
«Camões é uma divindade portuguesa; a Divindade tutelar da nossa Pátria. Portugal tem vivido à sombra do épico imortal: é o único país cuja autonomia se tem firmado sobre o nome de um Poeta.
A sombra de Camões vigia as nossas fronteiras e ampara as nossas Colónias. É uma fortaleza espiritual e por isso indestrutível.
Camões é ainda o nosso ponto de contacto com a Humanidade, com a vida eterna, porque ele foi o supremo intérprete do génio aventureiro e descobridor. Vasco da Gama transfigurado em sonho, eis o Poeta d'Os Lusíadas - esse poema feito de ondas, espumas, névoas, tempestades... Neptuno reencarnou em Camões para escrever em verso heróico a sua autobiografia.
Os Lusíadas são os Evangelhos do Mar. O Mar é o nosso Livro de Orações. Ler Os Lusíadas é rezar o Mar...
» 
Luís Vaz de Camões num quadro do pintor
português José Malhoa.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O índio brasileiro: um adorador de Deus ou do Diabo?

No rescaldo da Epifania, aproveitamos o momento para lembrar duas importantes pinturas do nosso património artístico quinhentista. A primeira, uma Adoração dos Reis Magos, obra de inícios do século XVI, da autoria do mestre Grão Vasco; a segunda, O Inferno, um trabalho de oficina, datado de finais da primeira metade do século XVI, cuja identidade dos autores se desconhece quase por completo. 
Ambos os quadros representam obras bastante interessantes, tanto do ponto de vista plástico, como iconográfico, podendo-se a este nível proceder a profundas e extensas dissertações. Contudo, é um dos pontos existentes em comum entre os dois quadros que gostaríamos de destacar - a presença do índio.
Com a descoberta oficial do Brasil, protagonizada por Pedro Álvares Cabral no ano de 1500, Grão Vasco terá decidido introduzir na sua Adoração dos Reis Magos esse novo elemento exótico, trazido pelos relatos dos navegadores portugueses vindos de Terras de Vera Cruz. A mensagem era clara. Mais um povo, mais uma raça, para a família de Cristo, introduzida aos desígnios da civilização cristã pela mão dos portugueses.  

Adoração dos Reis Magos, pintura da autoria do
mestre Vasco Fernandes, exposta no Museu Grão
Vasco, representando um dos Reis Magos como
um índio brasileiro.

Contudo, a verdade estava longe de ser não simples e linear. A evangelização dos índios brasileiros revelou-se, gradualmente, mais difícil do que inicialmente se esperava. Por outro lado, os navegadores portugueses à chegada a Terras do Pau-Brasil, ao verem as índias desnudas, facilmente perdiam a vontade de regressar, cedendo rapidamente às tentações carnais, julgando terem encontrado o paraíso terrestre, a Ilha dos Amores cantada por Luís Vaz de Camões na sua epopeia Os Lusíadas.
Deste modo, a figura do índio foi, rapidamente, demonizada em virtude da sua resistência à cristianização, bem como à aculturação civilizacional perpetrada pelos portugueses. Não será por isso de estranhar que, apenas alguns anos após Grão Vasco ter pintado a sua Adoração dos Reis Magos, retratando um índio como membro da grande família cristã, tenha nascido numa oficina de pintura portuguesa a obra O Inferno, retratando o nativo brasileiro, não como um fiel de Deus, mas como o próprio Diabo.

O Inferno, pintura de oficina de autores desconhecidos, exposta no Museu
Nacional de Arte Antiga. De salientar a representação do Diabo, assumindo
o aspecto de um índio brasileiro.