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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Aurélia de Sousa: Memórias de uma Exposição

Terminou ontem a exposição Aurélia, Mulher Artista. Uma mostra retrospectiva da obra de Aurélia de Sousa, organizada nos 150 anos do seu nascimento. Distribuída por dois pólos diferentes, Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio e o Museu da Quinta de Santiago, esta foi a maior exposição da genial pintora portuguesa jamais realizada após a sua morte.
Ao longo dos últimos 5 meses foi possível admirar um vasto conjunto de obras desta artista, muitas delas provenientes de colecções privadas, fomentando-se, uma vez mais, a discussão em torno do presente ocultamento da arte portuguesa. Com efeito, poder-se-á dizer que esta exposição, em conjunto com a de Amadeo de Souza-Cardoso - recentemente realizada em Paris -, prestou um importante contributo para a revalorização da arte portuguesa a nível nacional e internacional. Numa altura em que o Porto é alvo da preferência de turistas de todo o mundo impõem-se, enquanto cidade-berço para várias escolas e gerações de artistas, a promoção deste tipo de iniciativas, tão enriquecedoras como fundamentais para a promoção da cultura portuguesa.
As fotografias que aqui apresentamos remetem-nos para a parte da exposição patente na Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, procurando contribuir para a divulgação da obra de Aurélia de Sousa e a perpetuação da memória do excelente serviço público prestado por esta iniciativa.

Painel de divulgação da exposição de Aurélia de Sousa, colocado à entrada
da Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio.

Sala principal da exposição.

Panorâmica da exposição.

Outra panorâmica da exposição.

Menina num estúdio de pintura (s.d.).

À Sombra (s.d.).

Alguns desenhos de Aurélia de Sousa realizados na sua juventude.

Esboços e estudos de Aurélia de Sousa.

Filósofo (Diógenes) (s.d.).

Auto-Retrato (1889).

Auto-Retrato (s.d.).

Retrato de Natália Rocha (s.d.).

Retrato de Luciana Dias Gaspar (s.d.). Uma obra que revela alguns
traços precursores do nosso primeiro modernismo.

História de Coelhos (Biombo em Tríptico) (s.d.).

terça-feira, 21 de junho de 2016

Aurélia de Sousa, 150 anos

«A pintora Aurélia de Sousa logrou alcançar reconhecimento pela qualidade técnica do seu trabalho, um factor aliado à sua condição de "mulher-artista". Efectivamente, o nome de Aurélia ainda constitui uma excepção dentro da galeria dos grandes pintores portugueses, a par do de Josefa de Óbidos, a pintora do barroco português.»
Adelaide Duarte em Aurélia de Sousa

(Clicar na imagem para ampliar.)

A cidade do Porto foi, na viragem do século XIX para o século XX, um importante farol para a arte e cultura europeias. Da pintura à escultura, passando pela poesia, literatura e filosofia, a Invicta revelou-se berço de génios e ponto congregador de artistas e intelectuais. Em 2016 comemoram-se os 150 anos do nascimento de Aurélia de Sousa, uma das figuras mais relevantes da pintura portuguesa dos últimos 200 anos que, a partir da cidade do Porto, alcançou uma surpreendente notoriedade internacional.
Tendo estudado na Academia de Belas-Artes do Porto, com Marques de Oliveira, e na Académie Julian de Paris, com Jean-Paul Laurens e Benjamin Constant, Aurélia de Sousa destacou-se pelo seu génio e singularidade criativa no meio artístico da sua época. Conhecida como interlocutora da estética naturalista, foi antes de mais uma artista livre de amarras estéticas, sabendo conferir a si mesma uma liberdade definidora dos seus fulgores criativos. Das paisagens aos seus auto-retratos, absorve-se da sua obra pictórica o registo intimista das vivências quotidianas da sociedade do seu tempo. Artista de transição, inspirada e atenta – tanto à tradição como às revoluções artísticas da sua época –, Aurélia de Sousa anunciou a convulsão emergente da modernidade.
Contrariamente ao que se tem vindo a afirmar junto de certos círculos, esta artista portuguesa nascida a 13 de Junho de 1866, em Valparaíso, no Chile, não representa, tal como o conjunto da sua obra, qualquer forma percursora do feminismo em Portugal. Pelo contrário, o que Aurélia de Sousa tão bem conseguiu imortalizar nas suas obras foi a beleza e delicadeza da essência feminina em todo o seu esplendor. Não obstante a existência das possíveis condicionantes e constrangimentos que, naquela época, poderiam advir da sua condição de mulher, esse factor jamais constituiu um obstáculo à consagração do seu génio.
Para além de ter estudado em França, Aurélia de Sousa também expôs naquele país, onde a sua obra foi, tal como em Portugal, aclamada e premiada. Assente numa matriz bem portuguesa, a qualidade do seu trabalho levou a que a sua carreira tomasse uma dimensão internacional, sendo ainda hoje aclamada como a principal pintora lusitana desde Josefa de Óbidos. Viajante inquieta e experimentadora de novas técnicas de pintura, dedicou-se também à ilustração e à fotografia. Desde cedo respeitada e admirada por críticos e colegas, fez da Quinta da China, propriedade adquirida pelos seus pais na cidade do Porto aquando do regresso da América do Sul, o seu espaço de predilecção, instalando aí a sua oficina de pintura.
Tendo em vista a celebração dos 150 anos do seu nascimento, inaugurou-se, no passado dia 13 de Junho, uma exposição intitulada “Aurélia, mulher e artista”. Esta mostra encontra-se dispersa por dois espaços distintos: Museu da Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira; Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, no Porto. Esta última instituição – recorde-se –, reúne, juntamente com o Museu Nacional Soares dos Reis, o principal espólio desta artista. Organizada pelas autarquias do Porto e Matosinhos, esta exposição foi comissariada por Filipa Lowndes Vicente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Patente ao público até ao dia 30 de Outubro, esta será, seguramente, a principal exposição póstuma de Aurélia de Sousa. Uma justa homenagem àquela que constitui um dos grandes “génios ocultos” legados por Portugal à arte europeia.

domingo, 25 de outubro de 2015

Luís Godinho, os Açores e a sua Natureza Mágica

Saudade e nostalgia de um Paraíso perdido. Eis dois sentimentos inspirados pela mágica e estonteante beleza do arquipélago dos Açores. Apesar de ter já sido alvo da nossa atenção por diversas vezes, não fomos capazes de negar um regresso aos cumes do continente perdido, ignorando as belíssimas fotografias de Luís Godinho que, recentemente, nos foram dadas a conhecer. O seu autor, filho daquelas misteriosas ilhas portuguesas, dedica-se à fotografia desde 2008, tendo já um livro publicado no qual faz um retrospectiva do seu trabalho ao longo dos últimos anos. 
Não obstante toda a beleza captada pela sua objectiva também em outras paragens do mundo, nomeadamente no Oriente, foram as fotografias dos Açores que mais nos deslumbraram e fizeram acalentar sonhos e fantasias atlantes. Deste modo, fica feito mais um convite para descobrir a inigualável beleza daquele nosso arquipélago, bem com o trabalho deste jovem fotógrafo português, cuja obra merece ser dada a conhecer.  










quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Exposição de Stalker Vitki na Sala da Folha


O nome Stalker Vitki, enquanto alter-ego de um pluri-artista marginal e intervencionista português, surge essencialmente associado ao projecto musical com a mesma nomenclatura. Porém, as suas áreas de acção e intervenção multiplicam-se em função da sua necessidade de criação, passando pela música, performance, vídeo, fotografia, design, pintura, poesia, ensaio, entre outras manifestações imanentes ao seu criador.
São várias as suas influências, entre correntes filosóficas, espirituais e esotéricas, artísticas ou literárias, pelo que, o seu conjunto, deixa transparecer uma visão bastante particular de um todo, interligado umbilicalmente aos confrontos entre a tradição e a vanguarda, ao material e o metafísico, bem como ao real e o onírico. O seu trabalho representa deste modo um conjunto de visões anunciadoras de forças não-tangíveis, rituais mágicos e manifestações das grandes forças telúricas.
A Sala da Folha, em Colares, preparou uma exposição de fotografia de Stalker Vitki, intitulada Remote View. Inaugurada ontem, esta mostra estará patente até ao próximo dia 14 de Setembro. A entrada é livre, não perca!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Foto-Síntese, uma exposição de João Marchante

«Inspirado na vida trivial e na percepção visual de uma evidência que está diante de nós, mas que muitas vezes passa despercebida, a série de imagens a cores de grandes dimensões habilmente encenada por João Marchante apresenta uma visão instável da paisagem humana expondo interiores, intimidades, sonhos e segredos, oscilando entre espaço familiar e espaço idealizado. A adolescente, incorporação da fragmentação e efemeridade das relações na contemporaneidade, transmite ansiedade, mutismo e distância sobre o sentido da imagem, sendo esta retratada de forma enigmática, contemplativa ou ausente deixando a identidade de quem a habita por desvendar. Marchante obtém imagens que pelo seu tema seduzem e enlaçam, incitando o observador a reflectir sobre a relação entre natureza interior e natureza exterior do sujeito através de imagens que olham e devolvem o olhar.»
Adriana Delgado Martins acerca da exposição Foto-Síntese.

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João Marchante é hoje um nome incontornável do vídeo e do panorama artístico português. Artista e autor crítico, concilia a criação com a actividade pedagógica, numa atitude altruísta e descomprometida com qualquer dogma para além do "bom gosto". Militante na blogosfera há já alguns anos, dirige um blogue de referência intitulado Eternas Saudades do Futuro, sendo ainda membro da comunidade Jovens do Restelo
Foto-Síntese é o nome da sua mais recente exposição individual, a primeira desde Vídeos Privados, patente em 2000 na Galeria Monumental, em Lisboa. Esta nova mostra de João Marchante será inaugurada hoje, pelas 21:00 na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, ficando patente ao público até 1 de Julho de 2012.
A não perder. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

André Henriques: 12 anos de fotografia!

Num Portugal cuja sociedade negligencia tantas vezes os seus maiores, entre pensadores, artistas e criativos, convém destacar a tenacidade destes na forma como de um modo altruísta e desinteressando, desempenham as suas actividades, estimulando criativamente as massas e as elites, contribuindo para a manutenção da memória histórica, tal como para o desenvolvimento positivo das próprias comunidades em que estão inseridos. Assinando como ah!PHOTO, André Henriques é um desses talentos que ao longo dos anos se tem vindo a destacar pelo profissionalismo e qualidade dos seus trabalhos.
Tendo começado cedo a destacar-se como fotógrafo dentro dos circuitos mais marginais e alternativos da cena musical portuguesa, ele é hoje um reputado nome do fotojornalismo nacional. Colaborador activo em várias publicações periódicas nacionais e internacionais, tem participado em várias exposições individuais e colectivas, tanto em Portugal, como no estrangeiro. As suas colaborações no mundo da música estendem-se hoje a diversas bandas e individualidades de renome internacional, tendo efectuado inúmeras sessões fotográficas oficiais.
Não obstante o sucesso e reconhecimento do seu trabalho, as suas criações não se circunscrevem exclusivamente ao fotojornalismo musical, alargando-se a outro tipo de áreas, desenvolvidas tanto a nível pessoal como profissional. Salienta-se ainda as suas criações e produções na qualidade de designer gráfico, desenvolvidas tanto em nome individual como através da empresa Wisecode.
De forma a evidenciar e homenagear o trabalho deste fotógrafo português, optou-se pela selecção de alguns momentos captados e imortalizadas através das suas objectivas, concernentes a alguns espectáculos de bandas e artistas portugueses.
Para mais informações sobre André Henriques e respectivos trabalhos visite-se o seu domínio oficial em www.ahphoto.pt.vu.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ponto de partida, lugar de encontro! Uma exposição sobre Orlando Ribeiro!

«Em um século, portugueses e espanhóis fecharam um circuito marítimo que passou a fazer-se com a regularidade de um fenómeno natural; as suas datas extremes são a conquista de Ceuta (1415), primeira cidade africana ocupada por um povo europeu, e a primeira viagem de circum-navegação começada por Magalhães e terminada por El Cano, numa estreita colaboração dos dois estados peninsulares (1517). (...) Em um século apenas mudou o futuro do mundo e, pela primeira vez, a história tomou dimensão universal. A Europa entra em contacto directo com todas as grandes sociedades ou civilizações históricas ainda vivas, na África, no Índico, no Pacífico, na América.»
Orlando Ribeiro em  Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico.
  
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O impressionante percurso e contributo de Orlando Ribeiro para o desenvolvimento científico e humano foi já aqui abordado neste espaço, tendo-se enfatizado sobretudo o seu trabalho de fotografo, paralelo à sua actividade sobranceira de geógrafo e investigador. Uma vida dedicada ao progresso da ciência, às humanidades e à arte da fotografia fizeram de Orlando Ribeiro um importante vulto da cultura portuguesa do século XX.
Nesse sentido, de forma a celebrar os 100 anos do nascimento de Orlando Ribeiro, a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), conjuntamente com o Centro de Estudos Geográficos (IGOT, Universidade de Lisboa), organiza uma exposição intitulada Orlando Ribeiro (1911-1997): Ponto de partida, lugar de encontro. Esta ficará patente na BNP até 18 de Fevereiro de 2012. A sua inauguração ocorrerá no próximo dia 26 de Outubro, sendo precedida de um pequeno colóquio sobre Orlando Ribeiro que contará com o seguinte programa: 

17h00 - Testemunhos sobre Orlando Ribeiro; 
18h00 - Entrega do Prémio Nacional de Geografia Orlando Ribeiro, atribuído pela Associação Portuguesa de Geógrafos;
18h30 - Inauguração da Exposição.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Retrospectiva da Arte Portuguesa do século XX (1910-1960)

«Na segunda década do nosso século, a arte portuguesa entrou subitamente em consonância com os movimentos de vanguarda europeus. A Exposição Livre (1911), os salões humoristas (desde 1912), a presença dos Delaunay em Portugal (1915-1917), as revistas Orpheu (1915) e Portugal Futurista (1917), a vinda dos bailados de Diaghilev (1917) e a experiência dos bailados portugueses (1918) são alguns dos acontecimentos que marcaram a acção dos modernistas num ambiente cultural dominado pelo gosto naturalista. De toda essa época ficaria apenas uma lenda, se não fosse a existência da obra de Amadeo de Souza-Cardoso, apresentada em 1916 no Porto e em Lisboa. Almada Negreiros, Eduardo Viana e Santa-Rita foram os seus companheiros. Impressionismo, futurismo, cubismo, orfismo, abstraccionismo, "purismo", expressionismo e proto-dadaísmo constituíram os diversos aspectos das obras realizadas.»
Rui Mario Gonçalves em História de Arte em Portugal - Pioneiros da Modernidade.

Continua patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado (MNAC), até ao próximo dia 5 de Outubro, a exposição temporária Arte Portuguesa do Século XX (1910-1960). Com uma curadoria de Adelaide Ginga, esta exposição faz uma retrospectiva histórica da criação artística em Portugal durante os primeiros sessenta anos do séc. XX, dividindo-se em cinco núcleos distintos: Frentes de vanguarda: de Paris a Lisboa; Almada Negreiros: dinâmica e volumetria; Neo-Realismo: lirismo e crítica; Surrealismo: poesia, onirismo e acaso; Abstracção: modulação e ritmo.
Com cerca de 100 obras em exposição, entre pinturas, desenhos, esculturas e fotografias, esta mostra conduz-nos desde os primeiros anos do séc. XX,  absolutamente indispensáveis a compreensão de todo o percurso da arte contemporânea portuguesa, com todos os seus pontos de ruptura e convergência com a tradição artística nacional, até à década de 1960. Organizada no âmbito das celebrações dos 100 anos do MNAC, esta exposição dá ainda a conhecer a todos os visitantes uma parte do importante acervo que esta instituição encerra, servindo assim para promover também um dos mais interessantes museus da capital portuguesa.
Aproveitamos por isso esta oportunidade para divulgar algumas das obras patentes nesta importante mostra que tão fortemente recomendamos visitar.

Cabeça, pintura da autoria de Amadeo de
Souza-Cardoso (c. 1913-1915).

A Sesta de José de Almada Negreiros (1939).

O Gadanheiro, uma pintura de Júlio Pomar (1945).

Adão e Eva, esculturas em terracota da autoria de Ernesto
Canto da Maia (1929-1939).

Eu, de Fernando Lemos (1949-1952).

Auto-retrato de Mário Eloy (1936).

Linhas incidentes, fotografia da autoria de Fernando
Taborda (1954).

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Captassons", um retrato sobre memórias musicais!

Estará patente ao público de 7 a 14 de Maio, no espaço Mercado Negro, em Aveiro, uma mostra fotográfica de Ângelo Fernandes intitulada Captassons: fracções de segundo de concertos
Confesso musicodependente desde tenra idade, Ângelo Fernandes, tem vindo ao longo dos anos a captar imagens de concertos, documentando fotograficamente uma memória e percepção do momento musical de uma forma bastante pessoal. 
Esta exposição nasce do seguimento dessa experiência exploratória, assim como da sua colaboração com o CLIP (suplemento cultural do Diário de Aveiro), iniciada em meados de 2007. A entrada é livre. 

(Clicar no cartaz para ampliar.)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Alfredo Keil: elogio a um romântico ou retrato de uma época

«É muito tentador arrumar Keil como um dos diletantes que viveram na roda cosmopolita dos últimos Braganças. Agarrada às aparências, esta classificação deixa escapar a personagem. (...)
Keil, porém, jamais se sentiu como um simples servidor da dinastia. Sentiu-se, muito intensamente, um cidadão no sentido antigo da palavra, devotado apenas à pátria.
Keil era filho de alemães. Lembrava-se de ouvir em casa o seu avô Stellpflug, que nunca conseguira aprender português (...) Falava e escrevia em francês ao pai, Johann Christian. Em 1876, tornou-se genro de um italiano, ao casar com Cleyde Cinatti, filha do arquitecto Giuseppe Cinatti. Mas a pátria foi, para Keil, sempre Portugal. Em 1869, a estudar em Nuremberga, suspirava melancolicamente: "Que saudades da minha pátria, do meu Tejo."
»
Rui Ramos em O Cidadão Keil.

Alfredo Keil foi de facto um cidadão ímpar, digno de um carinhoso destaque na memória do povo português. A sua vida diluiu-se na extensa obra que nos legou, testemunhado parte da grandeza dos grandes mestres do génio português que viveram aqueles conturbados anos de finais do século XIX e inícios do século XX. 
Sobretudo conhecido enquanto compositor, Alfredo Keil foi um artista e homem completo. Músico, compositor, coleccionista, fotografo, excelente pintor, Keil encarnou o verdadeiro sentido da estética romântica, associando os seus múltiplos talentos ao gosto pela cultura e ao arrebatador amor pela sua pátria, Portugal. Este sentimento revela-se não apenas na força que impôs às paisagens que pintou ou à sua composição musical mais famosa, A Portuguesa, nosso actual hino nacional, mas também pelo facto de ter composto a primeira ópera cantada em português, A Serrana, uma peça inspirada numa obra do incomparável Camilo Castelo Branco.
Não deixa se ser irónico que uma personalidade como a de Alfredo Keil seja tão pouco conhecida e celebrada no nosso país. A máxima de que o produto estrangeiro é melhor não podia uma vez mais estar tão errada, dada a qualidade superior das obras de Keil, reconhecidas e galardoadas internacionalmente, tanto ao nível da música, como da pintura. Causa-nos por isso alguma repulsa constatar que, por exemplo, em 2006, por altura dos 250 anos da morte de Mozart, até a mais pequena das freguesias celebrou a efeméride do compositor austríaco, num programa de celebrações que se estendeu até 2007, ano em que se assinalou os 100 anos do desaparecimento de Alfredo Keil. Estranhamente, ou talvez não, pouco ou nada se ouvir falar acerca de Alfredo Keil. As composições de Mozart inundavam as salas de espectáculo portuguesas, não havendo quem no seu reportório integrasse uma única música do compositor  português que, goste-se ou não, foi bem mais preponderante e importante para Portugal do que Wolfgang Amadeus Mozart.
A extinta revista independente de música e cultura Elegy Ibérica, foi dos poucos representantes da imprensa a lembrar esta efeméride em 2007, com um artigo que aqui aproveitamos para reproduzir, num sinal de claro reconhecimento e sentida saudade por essa publicação periódica.

(Clicar na imagem para ampliar.)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O Portugal Universal de Orlando Ribeiro

«Os Descobrimentos históricos e marítimos, o desvendamento do mundo visível e o descentramento português para o Oriente e o mundo têm sido assumidos por autores fundamentais da cultura portuguesa não tanto pelo que neles positiva e mais imediatamente se cumpre, seja a expansão da Fé e do Império, seja o encontro de culturas e o conhecimento empírico do planeta, mas antes como figura simbólica ou antecipação profética de uma outra e mais decisiva Descoberta a fazer, na qual superiormente se consumaria, já na transição da história para a meta-história, a potencialidade, a vocação ou o destino maior da nação, transcendente do "drama da globalização" a que deu início na inauguração do mundo moderno.»
Paulo Borges em Uma Visão Armilar do Mundo.

Falar de Orlando Ribeiro, é muito mais do que falar de um simples geógrafo ou homem das ciências. Falar de Orlando Ribeiro, é falar daquele que provavelmente foi o maior geógrafo português de todos os tempos, um homem com uma história de vida fascinante, completamente voltada para as ciências e progresso científico. Um homem que criou, não apenas no âmbito das ciências, mas também no meio artístico, dada a sua extrema sensibilidade para as artes, em particular a música que tanto apreciava, e a fotografia, essa paixão que toda a vida o acompanhou de forma quase indissociável de tudo o resto.
Nas suas viagens pelo mundo Português, após calcorrear todo o Portugal continental,  do mais conhecido ao mais profundo, chegando a locais praticamente inacessíveis, tantas vezes sozinho, na companhia de um burro, da sua máquina e dos seus preciosos cadernos, passando pelos nossos arquipélagos atlânticos, territórios africanos e asiáticos, Orlando Ribeiro, traçou um retrato vivo de uma importante parte da presença lusíada no mundo. Para além de Portugal, incluindo Açores e Madeira, as suas viagens pelo Mundo Português  levaram-no até outros territórios como Cabo-Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Goa, Damão e Diu, desenvolvendo um aprofundamento do conhecimento sobre esse Portugal Universal, materializado em distintas terras, gentes e culturas.
Nascido em Lisboa a 16 de Fevereiro de 1911, Orlando Ribeiro licenciou-se e doutorou-se em Lisboa, na área de História e Geografia, tendo recebido uma forte influência de grandes mestres como David de Melo Lopes e de José Leite de Vasconcelos, a quem de resto dedicou a sua obra maior, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico em 1945. Tendo passado por Coimbra e Paris, onde trabalhou com o historiador Marc Bloch na Sorbonne, foi em Lisboa que Orlando Ribeiro se radicou e desenvolveu grande parte do seu trabalho e criou o Centro de Estudos Geográficos.
Intelectual completo, interessado em áreas tão distintas como Geografia, Geologia, História, Etnografia, Antropologia, Fotografia, entre outras, Orlando Ribeiro foi um renovador e modernizador da Cultura e Academia Portuguesa, podendo-se encontrar mais informações quanto à sua vida e obra num interessante artigo de João Carlos Garcia, intitulado Orlando Ribeiro (1911-1997): o Mundo à sua procura, publicado em 1998 na revista do departamento de Geografia da FLUP.

Orlando Ribeiro num auto-retrato tirado com uma máquina Leica (1940).

Casa de Pedra em Monsanto, a aldeia mais Portuguesa de Portugal (1958).

Erupção dos Capelinhos, na Ilha do Faial,  vista do Costado da Nau
no dia 7 de Janeiro de 1958.

Cena rural captada em Santana, na Ilha da Madeira (1948).


Carregamento de amendoim no porto de Bissau (1947) .

Marco indicador da passagem do Equador no Ilhéu das Rolas,
em São Tomé e Príncipe (1952).

Nova Caipemba, em Angola (1960).

Palhota quadrada, de andar, em Zambeze, Moçambique (1961).

Crianças mouras nas ruas de Damão (1956).

Vendedeiras de Suró, em Brancavará, Diu (1956).

Praia de pesca de Siridão, em Goa (1956).