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terça-feira, 10 de julho de 2012

História de Portugal distribuída gratuitamente com o Expresso

«Apesar das limitações do nosso trabalho, gostaríamos que esta História de Portugal despertasse a atenção para a importância da História como meio de dar profundidade à reflexão e debate público sobre o país, por vezes demasiado circunscrito por uma tecnocracia "presentista", para quem Portugal parece ter começado hoje. Porque a História não é só um acervo de conhecimentos, mas uma maneira de pensar.»
Rui Ramos no prólogo da sua História de Portugal

Numa tentativa de assegurar a fidelidade dos seus leitores durante os meses de Verão, o semanário Expresso apostou na oferta da História de Portugal de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos, autor e coordenador. 
Sucesso de vendas da Editora Esfera dos Livros, esta obra é agora reeditada em 9 volumes, publicados em formato de bolso, com caixa arquivadora. De crucial importância para a nossa historiografia mais recente, este trabalho representa já um marco incontornável da investigação histórica feita em Portugal. Ilustrando 900 anos da nossa História, esta obra abrange todo um período que vai do Condado Portucalense até à actual III República.
A sua distribuição é gratuita e terá início já no próximo Sábado, dia 14 de Julho, prolongando-se até 8 de Setembro. Trata-se de uma colecção obrigatória a não perder!

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Alfredo Keil: elogio a um romântico ou retrato de uma época

«É muito tentador arrumar Keil como um dos diletantes que viveram na roda cosmopolita dos últimos Braganças. Agarrada às aparências, esta classificação deixa escapar a personagem. (...)
Keil, porém, jamais se sentiu como um simples servidor da dinastia. Sentiu-se, muito intensamente, um cidadão no sentido antigo da palavra, devotado apenas à pátria.
Keil era filho de alemães. Lembrava-se de ouvir em casa o seu avô Stellpflug, que nunca conseguira aprender português (...) Falava e escrevia em francês ao pai, Johann Christian. Em 1876, tornou-se genro de um italiano, ao casar com Cleyde Cinatti, filha do arquitecto Giuseppe Cinatti. Mas a pátria foi, para Keil, sempre Portugal. Em 1869, a estudar em Nuremberga, suspirava melancolicamente: "Que saudades da minha pátria, do meu Tejo."
»
Rui Ramos em O Cidadão Keil.

Alfredo Keil foi de facto um cidadão ímpar, digno de um carinhoso destaque na memória do povo português. A sua vida diluiu-se na extensa obra que nos legou, testemunhado parte da grandeza dos grandes mestres do génio português que viveram aqueles conturbados anos de finais do século XIX e inícios do século XX. 
Sobretudo conhecido enquanto compositor, Alfredo Keil foi um artista e homem completo. Músico, compositor, coleccionista, fotografo, excelente pintor, Keil encarnou o verdadeiro sentido da estética romântica, associando os seus múltiplos talentos ao gosto pela cultura e ao arrebatador amor pela sua pátria, Portugal. Este sentimento revela-se não apenas na força que impôs às paisagens que pintou ou à sua composição musical mais famosa, A Portuguesa, nosso actual hino nacional, mas também pelo facto de ter composto a primeira ópera cantada em português, A Serrana, uma peça inspirada numa obra do incomparável Camilo Castelo Branco.
Não deixa se ser irónico que uma personalidade como a de Alfredo Keil seja tão pouco conhecida e celebrada no nosso país. A máxima de que o produto estrangeiro é melhor não podia uma vez mais estar tão errada, dada a qualidade superior das obras de Keil, reconhecidas e galardoadas internacionalmente, tanto ao nível da música, como da pintura. Causa-nos por isso alguma repulsa constatar que, por exemplo, em 2006, por altura dos 250 anos da morte de Mozart, até a mais pequena das freguesias celebrou a efeméride do compositor austríaco, num programa de celebrações que se estendeu até 2007, ano em que se assinalou os 100 anos do desaparecimento de Alfredo Keil. Estranhamente, ou talvez não, pouco ou nada se ouvir falar acerca de Alfredo Keil. As composições de Mozart inundavam as salas de espectáculo portuguesas, não havendo quem no seu reportório integrasse uma única música do compositor  português que, goste-se ou não, foi bem mais preponderante e importante para Portugal do que Wolfgang Amadeus Mozart.
A extinta revista independente de música e cultura Elegy Ibérica, foi dos poucos representantes da imprensa a lembrar esta efeméride em 2007, com um artigo que aqui aproveitamos para reproduzir, num sinal de claro reconhecimento e sentida saudade por essa publicação periódica.

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Novo reparo à suposta influência romana na constituição territorial de Portugal

As razões e condicionantes que levaram à génese de Portugal constituem um dos maiores mistérios da historiografia portuguesa. Desde a publicação da obra De Antiquitatibus Lusitaniae, de André de Resende, em 1593, até meados do século XIX, os lusitanos foram sempre vistos e encarados como os mais directos antepassados dos portugueses e o seu território o embrião do Portugal que hoje conhecemos. A primeira grande oposição a esta perspectiva histórica inicial deu-se em 1846, quando Alexandre Herculano publicou o primeiro volume da sua História de Portugal, uma obra que, infelizmente, nunca viria a terminar. O desenvolvimento da historiografia portuguesa entrou nesse período numa fase de profundo desenvolvimento, a par de outras importantes ciências sociais, permitindo catapultar esta questão  para o centro de grandes debates. Da discussão não nasceu a luz, contudo, vários caminhos ficaram expostos à luminosidade do intelecto de investigadores como Martins Sarmento, Leite de Vasconcelos, Ferraz de Macedo, Oliveira Martins, Teófilo Braga, Mendes Corrêa, António Sardinha, Alfredo Pimenta, Jaime Cortesão, Torquato Soares, Orlando Ribeiro, Amorim Girão, Luís Schwalbach, entre variadíssimos outros magistralmente compilados e sintetizados por Damião Peres em Como nasceu Portugal, uma obra obrigatória para uma melhor compreensão da génese da Nação Portuguesa.
Nessa obra de 1938, uma das perspectivas divulgadas era a da influência do antigo aparelho administrativo romano, sob a forma dos seus conventos jurídicos que, posteriormente, deram lugar à organização diocesana. Porém, a historiografia portuguesa, longe de estar estagnada, prosseguiu no estudo e análise deste e outros problemas da nossa História. Na mais recente História de Portugal, da autoria de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos que também a coordena, este problema ,da influência romana na formação do território português sobre a forma de uma herança jurídico-administrativa, volta a ser questionado.
«Os romanos, chegados à Península em 218 a. C., instalaram-se, de início, sobretudo no Sul (actuais Alentejo e Algarve, no que respeita ao futuro território português), através de acordos, mais do que pela violência bélica. Já nas regiões situadas entre o Tejo e o Douro, as populações autóctones, sobretudo os lusitanos, resistiram aos romanos durante cerca de cem anos, de meados do século II a. C. a meados do séc. I a. C. Vencida esta resistência, por volta de 25 a. C. o domínio romano abrangia todo o futuro território português. Poucos anos depois, entre 13 e 16 a. C., sob o imperador Augusto, a Península foi divida em três províncias (Terraconense, Bética e Lusitânia), mas no final do século III existiam cinco (além das três anteriores, também a Cartaginense e a Galécia). O que viria a ser Portugal jamais coincidiu, nos seus limites territoriais, com alguma destas províncias. A Lusitânia não abrangia a zona norte do Douro (integrada na Galécia) e abarcava uma vasta área da actual Estremadura espanhola, tendo mesmo a sua capital em Emerita Augusta (Mérida).» 
Em História de Portugal de Rui Ramos (coord.).

Divisão da Hispania romana na época do Imperador Augusto (séc. I a. C.).

A divisão da Península Ibérica pelos romanos já em finais do séc. III.