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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ariano Suassuna (1927-2014): A fantástica vida do último grande sebastianista

Falecido no passado dia 23 de Julho, Ariano Suassuna foi um guardião do inexpugnável bastião da lusitanidade em terras brasileiras. Encontrando uma forma perfeita de ligar a modernidade e a vanguarda à herança ancestral da nossa tradição e seus respectivos mitos e arquétipos, conseguiu não só recuperar o espírito daquela que seria a mais óbvia das extensões ultramarinas da portugalidade, como também contribuir para a definição do ethos e da identidade real do povo brasileiro, em particular dos nordestinos.
Da autoria de José Almeida, o artigo Ariano Suassuna: A fantástica vida do último grande sebastianista, originalmente publicado na edição de 29 de Julho do semanário O Diabo, foi agora reeditado no Suplemento Cultural do Diário do Minho. Uma vez mais acompanhado pela belíssima ilustração da artista brasileira Haylane Rodrigues
Vale a pena ler e conhecer a vida e obra daquele que, seguramente, poderemos considerar o último grande sebastianista.

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sexta-feira, 1 de junho de 2012

D. Sebastião e o Quinto Império em Fernando Pessoa

«Reactivar o mito ou os mitos profundos do povo português, eis o objectivo de Fernando Pessoa, que na Mensagem se faz o profeta (mas um profeta angustiado, torturado e saudoso) do regresso de D. Sebastião e da instauração do Quinto Império, embora um D. Sebastião e um Quinto Império muito diferentes da tradição comum.»


D. Sebastião e o Quinto Império em Fernando Pessoa é o nome da comunicação apresentada no próximo dia 6 de Junho, por Paulo Borges, na nona sessão do ciclo de conferências Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano. Organizado pelo próprio Paulo Borges, juntamente com Nuno Ribeiro e Cláudia Souza, esta sessão terá lugar, como de costume, pelas 18:30, nas instalações da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.
A entrada é livre e aberta a todos os interessados.

domingo, 25 de setembro de 2011

Um olhar sobre as origens históricas do Sebastianismo

A obra Origens do Sebastianismo, de António Costa Lobo, apesar de originalmente publicada em 1909, continua a ocupar um papel de relevo na bibliografia sebástica e sebastianista. Analisando as raízes históricas e materiais de um dos principais aspectos moldadores da personalidade espiritual portuguesa, este livro foi agora reeditado pela Texto Editora, numa edição antecedida por um interessante e enriquecedor prefácio de Eduardo Lourenço.
A referência a esta importante edição que, voltou a colocar o texto de António Costa Lobo à disposição de todos os interessados pela temática do sebastianismo, há muito merecia a nossa atenção, apesar dos consecutivos adiamentos perante a publicação de uma qualquer nota sobre este lançamento. Aproveitamos por isso a oportunidade de partilhar um pequeno mas curioso apontamento de José Almeida, publicado no seminário O Diabo do passado dia 6 de Setembro, sobre esta nova edição de Origens do Sebastianismo.   

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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Lembrar D. Sebastião nos 433 anos de Alcácer Quibir

«A Batalha de Alcácer Quibir teve lugar a 4 de Agosto de 1578. Após um período de desfecho incerto, o exército português e os seus auxiliares cristãos e marroquinos foram completamente derrotados. Na batalha morreram três reis e, por isso, é frequentemente designada por essa circunstância. D. Sebastião morreu em combate, Mulei Mohamede foi morto pelos seus adversários e Mulei Abdelmaleque (Mulei Maluco) faleceu de doença no final dos combates.A morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir constituiu o maior desastre da História de Portugal porque abriu o grave problema de sucessão ao trono e a consequente tomada do poder por parte de Filipe II de Espanha. A derrota traduziu-se na morte e cativeiro de muitos nobres e milhares de homens que permitiram durante muito tempo, ao novo sultão obter ricos resgates.»
António Dias Farinha em História da Expansão Portuguesa (Vol. 1).

Dom Sebastião de Carlos Barahona Possollo (1992).

Perfaz hoje 433 anos sobre o fatídico desaire militar de Alcácer Quibir. Na contenda desapareceu o rei menino, D. Sebastião, que tantos tinham como o Desejado. O seu cognome acompanhou-o desde a sua pré-concepção ao além-morte, tendo o seu nome dado lugar a umas das mais importantes expressões da espiritualidade portuguesa, o sebastianismo.
O desaparecimento físico do monarca português, retirou-o dos domínios da história, elevando-o ao plano do mito. Esta transformação alquímica do suposto mártir numa entidade mitológica processou-se no imaginário português de uma forma bastante rápida, integrando-se de imediato no imaginário espiritual nacional, lugar onde a "certeza" histórica dos homens de pouco vale.
Alcácer Quibir foi uma segunda vivência da Paixão. D. Sebastião perdeu-se num estranho labirinto enquanto as hostes portuguesas foram derrotadas, para que na sequência do fatalismo que se seguiu fosse possível viver a alvorada da esperança, no regresso de algo ainda maior e por viver, expresso num sentimento encerrado no coração de todos os portugueses - a saudade. 
Alcácer Quibir enquanto sacrifício cristológico é uma vitória, nunca uma derrota.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

D. Sebastião: de Desejado a Encoberto

«O cognome "o Desejado", que vulgarmente se lhe atribui, advém do dramático contexto político em que D. Sebastião foi gerado e em que nasceu. De facto, antes mesmo de vir ao mundo, ele é já depositário da última esperança de que o país não venha, a breve prazo, a ser governado por um rei castelhano. Não admira, pois, que ao seu nascimento seja, desde logo, atribuído um carácter miraculoso, expresso até à exaustão em vários testemunhos da época e que viria a marcar profundamente o seu percurso e a sua imagem pública. Para muitos, essa marca providencial foi o sinal revelador de que D. Sebastião estaria predestinado a alçar Portugal às glórias passadas, como guerreiro defensor da Cristandade.»
Maria Augusta Lima Cruz em D. Sebastião.

Realiza-se no próximo Sábado, dia 2 de Julho, pelas 15:30, na Quinta da Regaleira, em Sintra, uma interessantíssima conferência de Manuel J. Gandra, subordinada ao tema D. Sebastião: de Desejado a Encoberto. Prometendo o orador revelar alguns documentos confidenciais espanhóis relativos ao monarca português, esta comunicação merecerá o mais vivo interesse de todos os apaixonados pelos múltiplos universos inerentes à Cultura Portuguesa encerrados na figura histórica de D. Sebastião, num autêntico convite ao vislumbre daquela Luz escondida para lá do Nevoeiro.

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Encoberto poderá ser D. Afonso Henriques

O Encoberto

Que símbolo fecundo 
Vem na aurora ansiosa? 
Na Cruz Morta do Mundo 
A Vida, que é a Rosa. 

Que símbolo divino 
Traz o dia já visto? 
Na Cruz, que é o Destino, 
A Rosa, que é o Cristo. 

Que símbolo final 
Mostra o sol já desperto? 
Na Cruz morta e fatal 
A Rosa do Encoberto. 

Fernando Pessoa em Mensagem (1934).

Para além da Saudade, um outro importante traço definidor do Arquétipo Português, do nosso imaginário colectivo, é o Messianismo. Em ambos os casos, quando discutidos, assistimos a calorosas e apaixonadas intervenções, seja por força de uma mera questão de definição conceptual, seja em virtude da concordância ou não com estes sentimentos ou emoções. Em todo o caso, o Messianismo Português, mormente apelidado de Sebastianismo, numa clara alusão ao jovem monarca português desaparecido precocemente na batalha norte-africana de Alcácer-Quibir de 4 de Agosto de 1578, acompanha-nos até nos nossos dias, ainda que de forma dissimulada e muitas vezes "encoberta". Várias são as vozes que têm vindo a apontar este traço, tão característico da nossa personalidade pátria, como uma das principais causas da inércia em que temos vindo a mergulhar, sem se aperceberem da necessária proactividade que o Sebastianismo requer na busca pelo tão almejado V Império. Talvez sem se aperceberem, estas vozes críticas, geralmente escravas de um fundamentalismo racional, revisitam o celebre episódio camoniano do Velho do Restelo, augurando maus presságios que, obviamente, esperamos nunca se venham a concretizar.
O Messianismo Português entra no séc. XX pela mão de Sampaio Bruno, em particular, através do seu livro O Encoberto. Contudo, é com Fernando Pessoa que a questão do Desejado é novamente retirada do domínio das elites intelectuais, sendo devolvido ao povo.  

D. Sebastião representado por Lima de Freitas.

Com o nascimento da Filosofia Portuguesa, enquanto movimento filosófico nacional, a questão do Sebastianismo tornou-se de imediato um  dos seus temas nucleares, podendo ser acompanhado nas obras de pensadores como José Marinho,  Francisco Cunha Leão, António Quadros, Pinharanda Gomes, entre outros. 
Em 1987, José van den Besselaar foi convidado pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa a escrever uma pequena obra sintetizadora do Sebastianismo, para ser integrada na colecção Biblioteca Breve, hoje disponibilizada, integralmente, online de forma gratuita pela Biblioteca Digital Camões.  Foi nessa obra, intitulada O Sebastianismo - História sumária, que o autor avançou com uma hipótese para a identidade do Desejado que, não sendo surpreendente, é no mínimo curiosa e menos conhecida do grande público. Assim, José van den Besselaar apresenta uma nota de um monge copista, encarregue de transcrever as Esperanças de Portugal do Padre António Vieira, por alturas da reabertura do processo de canonização de D. Afonso Henriques,  em 1728 por ordem de D. João V, na qual é sugerido o nome do primeiro monarca português como o Desejado ou o Encoberto. É essa interessante nota anónima que hoje vos deixamos neste espaço.
«Até aqui o insigene [sic] e inimitável Padre António Vieira [...]; ele fala com excessivo e meritíssimo amor ao Sereníssimo Rei D. João IV, ao qual prefere com restrita [= exclusiva] inteligência a outro qualquer monarca, fazendo-o particular objecto das suas bem fundadas ponderações e do sentido das profecias do Bandarra, que os seus discursos justamente honra. [...] Mas, como na matéria é problemática, de que o Reverendíssimo Padre não duvida, venerando quanto aqui nos propõe, se dará licença para que sobre a ressurreição  prometida diga um ignorante simbólico [= rematado] também alguma coisa. [...] Protesto não criticar cousa alguma do que aqui vemos escrito e venero, mas falar problematicamente [= hipoteticamente]...

É o poder de Deus infinito, e pode ressuscitar a quem for servido, tanto a um como a outro, e a muitos reis e pessoas segundo as disposições de sua divina vontade e altíssimas e inescrutáveis obras e juízos.
Bandarra, quando vaticina que um rei há-de vencer, bater e sujeitar o Turco, entre muitas outras cousas que pondera diz:

As armas e o pendão
e o guião
foram dadas por vitória
naquele alto Rei da glória,
por memória,
a um santo Rei varão
em possessão.
O Calvário por bandeira
levá-lo-á por cimeira
e alimpará a lameira
(outros dizem: a carreira)
de toda a terra do Cão.
Com que parece que, devendo haver ressurreição de rei, para obrar as maravilhas que profetiza a favor da Igreja e contra o Turco, nos assinala primeiro ao Sr. Rei D. Afonso Henriques, dotado de tantas virtudes, favores do Céu e proezas, a quem o mesmo Cristo deu em possessão as armas [...], para se cumprir nele a profecia que se entende faz da ressurreição de um rei, dizendo que este as levará por cimeira e limpará toda a terra do Cão, como naturalmente se infere das expressões do Bandarra, e que este se deve entender ser o Rei santo e todo o bem-aventurado, a que ele em outra parte aponta; pois se considera tão santo e justo nos progressos da sua vida que está no lance de ser brevemente canonizado...»
O Encoberto, painel de azulejos da autoria de Lima de Freitas.