Mostrar mensagens com a etiqueta Temas e Debates. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Temas e Debates. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa

Recentemente publicado pela Temas e Debates e o Círculo de Leitores, o Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa é já uma das obras mais relevantes no âmbito da Filosofia e da Cultura em Portugal, publicada nos últimos anos. Uma obra de referência que, não obstante algumas gralhas e ausências entre as figuras destacadas, importa saudar e divulgar. Trata-se de um importante contributo para o estudo e divulgação de um dos aspectos a que, habitualmente, menos se atende nas análises à cultura portuguesa. 
A Filosofia Portuguesa, latente no ethos e no espírito do nosso Povo, é algo que nos subjaz de forma implícita, mais do que explícita. Ela constitui um elemento inesgotável do nosso património imaterial, sendo absolutamente definidora do perfil e ser do Homem Português. Consagrando a existência de uma forma de pensamento própria dos portugueses, a existência da Filosofia Portuguesa é recusada por todos aqueles que, contaminados pelo materialismo e as correntes internacionalistas, repudiam a portugalidade, bem como a essência da alma lusíada. 
Deste modo, partilhamos hoje uma recensão da autoria de José Almeida ao Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa, publicada na edição da passada Terça-Feira do semanário O Diabo. Trata-se de uma recensão breve, mas bastante distinta daquela de Paulo Tunhas - universitário detractor da cultura portuguesa -, publicada no Observador.

(Clicar na imagem para ampliar.)

quinta-feira, 31 de março de 2016

Terminar a Revolução: A política portuguesa de Napoleão a Salazar

«Muitas revoluções, nenhuma Revolução. Em quatro palavras este poderia ser um curtíssimo resumo da história política do Portugal contemporâneo.»
José Miguel Sardica em Terminar a Revolução.

O grande terramoto que a 1 de Novembro de 1755 varreu Portugal marcou de forma simbólica o nosso traumático despertar para a contemporaneidade. A esta sísmica catástrofe, de ordem natural e escatológica, multiplicaram-se sucessivas réplicas e ondas de choque, responsáveis por uma espiral de profundas mudanças de ordem política e, consequentemente, social.
A derrocada da muralha tradicional permitiu a propagação de um espírito estrangeirado que, sobretudo após a Revolução Francesa, contribuiu para a desagregação das nossas instituições. Estas, de forma gradual, foram deixando de servir os interesses nacionais e do Povo português. A obscura influência iluminista, agravada pelas invasões napoleónicas, agudizou este processo de dissolução, trazendo múltiplas fracturas à orgânica da nossa comunidade nacional. Assim, o período compreendido entre a chegada das legiões de Napoleão e a instauração do Estado Novo foi de constante convulsão e revolução. Uma revolução que, em alguns momentos, se chegou mesmo a transformar em guerra civil, trazendo pouca ou nenhuma concórdia e regeneração à nação, com a excepção da Revolução Nacional de 28 de Maio e do regime que lhe sucedeu.
Terminar a Revolução: A política portuguesa de Napoleão a Salazar, publicado pela Temas e Debates / Círculo de Leitores, perspectiva essas páginas da nossa História integrando-as, estruturalmente, no pensamento histórico-político contemporâneo. O seu autor, José Miguel Sardica, Professor na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, autor de uma vasta obra no domínio da História Contemporânea de Portugal, cruza neste livro diversos regimes e momentos da política nacional, procurando definir e compreender cada um deles à luz do seu próprio postulado político-ideológico. Embora preso a determinados chavões impostos pelos “ventos da História”, este volume interpreta de forma cativante alguns dos sentidos dados à palavra “revolução”, analisando vários protagonistas históricos e os seus respectivos ideários.
Por outras palavras, esta obra de José Miguel Sardica aborda cerca de 200 anos da História de Portugal, incorporando-a nos momentos definidores da História da contemporaneidade europeia. Este estudo sobre o papel da “revolução” na política portuguesa ao longo dos últimos dois séculos mostra Portugal como um dos muitos cenários daquela a que o Professor Adriano Moreira designou de “Grande Guerra Civil Europeia” - o conflito que dividiu a Europa numa contenda fratricida entre 1789 e 1974.
Num momento histórico em que por todo o mundo se discute com afinco e paixão a questão das revoluções - sobre quem as faz e qual a sua legitimidade -, pode dizer-se que esta obra surge num momento pertinente, no qual importa estudar e conhecer as especificidades do caso português. Por esse motivo e dado o convite à reflexão deixado pela leitura desta obra, não nos podemos abster de questionar alguns aspectos da mesma, logo a começar pelo título: Terminar a Revolução. Assim, interrogámo-nos sobre que revolução importara terminar. Afinal, segundo nos aparece várias vezes mencionado na tradição filosófica portuguesa, a palavra revolução surge-nos associada à ideia de retorno e ao acto de revolver, num sentido de reaproximação de um centro, ou de uma matriz. Um regresso à tradição. Nesse caso, ao contrário do sugerido pelo autor e grande parte da actual historiografia, não teria sido António de Oliveira Salazar o mais autêntico e revolucionário dos líderes políticos portugueses nos últimos 200 anos? Não terá sido o Estado Novo o exacto contrário de um qualquer interregno revolucionário?

(Clicar na imagem para ampliar.)

terça-feira, 25 de março de 2014

É a Hora!

«É esse fraterno despertar da consciência que, emergindo deste "Nevoeiro" que ora somos, pode ser a aurora do (des)cobrimento Sol invicto de um Novo Dia.»
Paulo Borges na introdução da obra É a Hora!

(Clicar na imagem para ampliar.)

A publicação da Mensagem de Fernando Pessoa constitui um dos momentos de maior elevação espiritual no contexto da cultura portuguesa no século XX. Obra incontornável na História da nossa poesia, encerra nos seus versos um conjunto de misteriosas cifras associadas ao passado e ao futuro de um Portugal caracterizado por duas dimensões: histórica e anistórica. É a Hora!, o mais recente livro de Paulo Borges, propõe-nos uma chave para a leitura desta enigmática obra.
Indo de encontro às correntes despiritualizadas que caracterizam os actuais poderes instalados e o seu respectivo sistema, muitos intelectuais da nossa praça parecem conscientemente esquecer-se de que a Mensagem foi, efectivamente, o único livro que Fernando Pessoa publicou em vida. Ao contrário do que a cultura dominante afirma, este livro não representa de modo algum uma obra menor dentro do panorama literário nacional e muito menos no contexto geral do universo pessoano. Coroando o seu lado de nacionalista místico, a Mensagem apresenta-nos um Fernando Pessoa mitogenista e profético, revelador de um Portugal perene e arquetípico. O enigma e o mistério dominam assim a natureza desta obra, suscitando as mais complexas leituras e interpretações.
Tendo chegado às livrarias em finais de 2013, na véspera do primeiro centenário da obra Mensagem, o ensaio É a Hora! de Paulo Borges, publicado pela Temas e Debates / Círculo de Leitores, nasce de um profundo contacto desenvolvido e cultivado ao longo de mais de três décadas pelo seu autor face àquela obra de Fernando Pessoa. Um diálogo estreito mas labiríntico que nos leva a meditar acerca das leituras e interpretações profético-mitológicas, simbólicas e histórico-filosóficas levadas a cabo por um dos mais importantes nomes vivos da filosofia portuguesa.
Paulo Borges surge hoje associado a diversas dimensões da nossa vida pública. Conhecido como Professor, activista, político e filósofo, o seu nome inscreve-se nos anais da cultura nacional desde finais dos anos 1970. Desde então o seu percurso tem sido trilhado no sentido de uma demanda pelo saber e o conhecimento, sempre numa perspectiva indissociável da busca e revelação do espírito. Partindo do particular para o universal, é na esteira desta mesma tradição filosófica e sua respectiva operatividade que nasce a obra É a Hora!, reveladora de uma revolucionária interpretação da mensagem da Mensagem. Segundo o autor, «o espírito desta obra visa que, ao lê-la e compreendê-la, sejamos movidos para fazer aqui e agora alguma coisa de essencial, sermos agentes de uma transformação profunda, de nós mesmos, de Portugal e do mundo.» Esta é a essência fundamental deste livro que, para além do desvelamento dos símbolos, mitos e arquétipos que encontramos na Mensagem, impede que os mesmos cristalizem, mantendo-os vivos, através da tentativa da sua renovação.
Sendo É a Hora! uma obra de comentário e interpretação da Mensagem, nela reproduzem-se integralmente os poemas que a constituem, respeitando-se a sua ortografia original, tal como foi publicada em 1934. Outra importante nota quanto à ortografia recai sobre o próprio conteúdo filosófico-ensaístico de Paulo Borges que, naturalmente, não obedece ao novo acordo ortográfico. Um pequeno grande pormenor que contribui para a excelência de um dos mais interessantes livros recentemente publicados no âmbito dos estudos pessoanos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Os nossos "dias do lixo"

«Dias em que todos sabemos o que é preciso fazer, dias em que o que é preciso fazer ganha uma urgência enorme, dias em que todos os que podiam fazer alguma coisa se obstinam em fazer exactamente o contrário do que deviam, perante a indignação, a impotência, o desespero dos cidadãos. Dias em que já nem sequer se pode falar de irresponsabilidade, mas de perversidade.»

(Clicar na imagem para ampliar.)

“Dias do lixo” foi a expressão cunhada por José Pacheco Pereira para descrever a actualidade político-social de um Portugal circunscrito e limitado à pequenez estéril da sua presente classe política. Uma expressão que, além de integrar o título do seu último livro – Crónicas dos dias do lixo –, reflecte um julgamento crítico e acusatório do autor face ao gradual processo de destruição nacional levado a cabo durante o final da governação de José Sócrates e a suposta era “refundadora” de Pedro Passos Coelho.
Logo nas primeiras páginas do seu livro, José Pacheco Pereira explica de forma simples e concisa a escolha do título: «Dias do lixo, para não usar uma expressão mais forte, porque é o que eles são.» Publicada pela Temas e Debates / Círculo de Leitores, esta obra colige um conjunto de textos e de crónicas publicadas entre 2010 e os inícios de 2013 no jornal Público, na revista Sábado e no blogue Abrupto, bem como alguns inéditos só agora divulgados publicamente.
O autor destas crónicas dispensa apresentações. Assumindo-se hoje como um ex-político, outrora deputado à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, o bibliómano, também professor do ISCTE, é hoje um reconhecido cronista e “opinion maker” na nossa imprensa escrita e televisão. Facto que, conhecendo-se a essência da sociedade massemediatizada do espectáculo, o coloca numa posição de proa na hierarquia política contemporânea. Assim, não nos equivocamos ao olhar as reflexões apresentadas nesta obra como parte integrante de um acto político levado a cena semana após semana, crónica após crónica.
Efectivamente, não obstante a natureza diversificada dos textos que integram o corpo constituinte deste livro, abordando temáticas ligadas à sociedade, economia e cultura, numa perspectiva nacional e internacional, é indiscutível o fundo político que estes encerram. Crónica panfletária, maquiavelismo político, “agit prop”, ou mero “realpolitik”? Caberá ao leitor ditar a melhor classificação deste olhar sobre os nossos “dias do lixo” que, estando longe de ter tido a sua génese durante o período de governação de José Sócrates, não conhecerão, infelizmente, o seu fim com a actual experiência governativa de Pedro Passos Coelho. Afinal, conforme nos adverte José Pacheco Pereira, com os portugueses em morte cerebral, esses filhos de um Portugal que mais parece um Weimarzinho, estamos condenados a um rotativismo político crónico, absolutamente compatível com a nossa condição de protectorado face à União Europeia.
Por último, não podemos deixar de fazer uma referência à nota introdutória do autor, concernente à ortografia em que a obra foi publicada. Conhecido pela sua convicta oposição face ao AO90, não deixa de nos chocar a missiva com que termina a sua introdução às Crónicas dos dias do lixo, pedindo desculpa aos leitores pela “bizarra ortografia em que vão ler estas palavras”, assumindo essa concessão aos editores pelo mérito de terem “aceitado publicar este livro no árido deserto editorial destes dias.”
Obra de inquestionável valor e interesse, reveladora no seu conteúdo de uma consistente liberdade política e intelectual, merecia na sua ortografia evidenciar também a tão louvável consciência e independência do seu autor.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Memória de um Povo

«A relação do camponês com a Terra e com a Vida é quase sacral. Ninguém é tão sensível à Alma Comum que anima e faz respirar todos os seres, esse panteísmo cósmico que vê Deus em tudo e tudo em Deus. Ninguém tem uma alma tão predisposta, tão aberta à beleza, à gravidade, à majestade da Natureza. O tempo para ele não é o tempo abstracto, mecânico dos relógios; mas o tempo concreto e criador do mundo da vida. Sabe e sente que há um abismo intransponível entre o mundo mecanizado da indústria, que cria milhares de artefactos por dia, por hora; e o mundo lento e incansável e laborioso da Vida, que, sem pressa e sem descanso, como fazem as estrelas, leva duzentos anos a criar um castanheiro ou um frondoso carvalho.»
Isabel Silvestre em Memória de um Povo.

Isabel Silvestre na capa do seu livro, intitulado
Memória de um Povo.

A não referência neste espaço ao recém editado livro de Isabel Silvestre, constituiria um autêntico crime de lesa-pátria. Como se já não tivesse contribuído o suficiente para manter forte o fogo interior da Alma Portuguesa, aconchegando, encantando e comovendo com a quase divina doçura da sua voz, a ex-professora primária, natural da aldeia de Manhouce, situada nas imediações de S. Pedro do Sul, lançou durante o passado mês de Dezembro um livro intitulado Memória de um Povo, editado pela Temas e Debates / Círculo de Leitores. Nele podemos encontrar uma recolha de lengalengas, histórias, orações, modos de falar, expressões, pregões, provérbios, adivinhas, quadras, romances, cantares ao desafio, recordações, pautas musicais, entre outros tesouros constituintes da memória colectiva daquela localidade e região. Um livro obrigatório, à semelhança de toda a sua discografia.


Aí senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão
Rogar a Deus que nos guarde
Confiar-lhe o destino na mão

Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialecto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais

E do resto entender mal
Soletrar assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz

Aí senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria
De boca em boca passar o saber
Com os provérbios que ficam na gíria

De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira

Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
Mas não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem