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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Representar cultos ancestrais

Ainda acerca da exposição de Daniel Gamelas, patente ao público até ao próximo dia 2 de Junho, na Ap'Arte - Galeria de Arte, no Porto, aproveitamos para destacar o artigo de José Almeida, publicado na edição de de 22 de Maio d'O Diabo, subordinado a esta interessante mostra.
Se ainda não a visitou, não deixe de aproveitar estes últimos dias para o fazer. Recordamos que a entrada é livre e aberta a toda a comunidade.

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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Daniel Gamelas expõe divindades lusitanas no centro do Porto

«Gamelas optou por não representar deusas arbitrárias, em vez disso, usa as suas influências nativas para criar autóctones ibéricos. A natureza exacta dessas divindades não é conhecida, nem o seu papel na mitologia lusitana antiga é totalmente compreendido, mas podem ser encontradas pistas nos seus nomes. Trebopala é o altar da casa, o lugar onde o sacrifício é feito para fornecer vida e cultura. Trebaruna é a protectora do lar, proporcionando resistência e abrigo para a fragilidade da vida. O que está claro é que estas são deusas de um matriarcado perdido, e Gamelas voltou a centrar a nossa atenção sobre a sua importância.»
Excerto do texto de introdutório de Brian Craig-Wankiiri.

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Depois de expor Cerimónias matriarcais em nome das mais antigas divindades do Cabeço das Fráguas: Trebopala, Laebo, Trebaruna, o ano passado, na Galeria de Arte do Teatro Municipal da Guarda, o escultor Daniel Gamelas dá agora a conhecer ao público do Porto as suas representações de algumas divindades do panteão lusitano. Inaugurada no passado dia 28 de Abril, esta exposição estará patente ao público até ao próximo dia 2 de Junho, na Ap'arte - Galeria de Arte.
Trata-se de uma excelente oportunidade para conhecer e contemplar o trabalho deste jovem e talentoso artista português, revisitando-se simultaneamente o sacro-universo dos nossos antepassados, através de uma viagem poética proporcionada pela materialização de novas representações das nossas arcanas divindades.
A entrada é livre e aberta a toda a comunidade. Uma exposição a não perder!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

S. Miguel Arcanjo, padroeiro de Portugal

«Sabe-se que os Christãos dos primeiros tempos olhavam aquelle santo como um dos génios tutelares da medicina, e é pois natural que a designação de S. Miguel succedesse à de Endovellico.»
José Leite de Vasconcelos em Religiões da Lusitânia Vol. II

Arcanjo S. Miguel, escultura portuguesa
oriunda de uma oficina coimbrã do
séc. XV.

Reza a lenda que D. Afonso Henriques, antes de defrontar os infiéis em terras escalabitanas, durante o ano de 1147, terá invocado a divina protecção e auxílio de S. Miguel Arcanjo que, respondendo às preces do monarca português, fez descer dos céus o seu punho alado, derrotando as forças sarracenas. Segundo a tradição, D. Afonso Henriques, como forma de agradecimento pela intercessão divina do Celestial Condestável, consagrou-lhe o seu jovem reino, confiando-lhe a sua protecção.
A devoção do primeiro rei de Portugal pelo Arcanjo S. Miguel ser-lhe-ia tal que o teria levado à criação da lendária Ordem Equestre e Militar de São Miguel da Ala, também conhecida por Ordem de São Miguel da Ala, Real Ordem de São Miguel da Ala, ou Ordem da Ala, mais tarde reactivada ou recriada pelos partidários do rei D. Miguel. Polémicas aparte, é hoje tomado como certo que o Arcanjo S. Miguel terá sido o primeiro padroeiro de Portugal, até que durante o reinado de D. João I, por influência do seu casamento com D. Filipa de Lencastre, se adoptou S. Jorge como orago nacional. Só após a Restauração de 1640, a Dinastia de Bragança decidiu coroar a Nossa Senhora da Conceição como rainha e patrona de Portugal, afastando-se desta forma a hipótese de regressarmos ao patronato do nosso primordial protector. 
Celebrado liturgicamente a 29 de Setembro, S. Miguel Arcanjo é venerado pelas três religiões do livro, judaísmo, cristianismo e islamismo, estando o seu culto largamente disseminado na Europa, onde encontramos o seu caminho geográfico-esotérico que liga em linha recta o santuário do Mont Saint-Michel (Norte de França), à Sacra di San Michele (Norte de Itália) e às grutas de S. Michele de Gargano (Sul de Itália). Contudo, é em Portugal que o culto a S. Miguel Arcanjo nos surge aparentemente mais enraizado, fruto de uma ligação ancestral de origem pré-cristã.
Ora, conforme é sobejamente sabido e discutido, Portugal é um dos locais na Europa onde a religiosidade é transcendentalmente vivida de uma forma bastante heterodoxa e espiritual, encerrando em si os mistérios esquecidos de um imaginário divino, albergado num inconsciente colectivo herdado numa época ou tempo histórico pré-fundação. Assim, é com alguma naturalidade que assistimos a uma harmónica simbiose entre o paganismo e o cristianismo que aqui soube adaptar-se ao cultos ancestrais das nossas gentes. Esta é no fundo a perspectiva defendida nos estudos seminais de José Leite de Vasconcelos em obras como Religiões da Lusitânia, onde o autor avançava com a possibilidade de Endovélico, principal divindade do panteão lusitano, ter adoptado a forma de S. Miguel, face à impossibilidade deste poder ser reconvertido no Deus cristão. 
Baseado nesta interpretação, poderemos encontrar um estreito diálogo político-cultural de carácter trans-religioso entre o pré-Portugal e Portugal, permitindo-nos conhecer um pouco melhor as nossas raízes e matrizes filosófico-culturais e histórico-espirituais. É por isso importante sabermos distinguir, interpretar e preservar os símbolos da nossa cultura, pois estes formam no seu conjunto a linguagem das nossas verdades superiores.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Exposição individual de Daniel Gamelas na cidade da Guarda

«Uma ovelha para Trebopala e um porco para Laebo. Uma crinosa égua para Loimina. Uma ovelha de um ano para Trebaruna e um touro cobridor para Trebona.»
 Excerto de uma inscrição encontrada em Cabeço das Fráguas, Guarda.

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Intitulada Cerimónias matriarcais em nome das mais antigas divindades do Cabeço das Fráguas: Trebopala, Laebo, Trebaruna, a exposição individual de Daniel Gamelas, patente na Galeria de Arte do Teatro Municipal da Guarda, entre 28 de Maio e 24 de Julho, é votada aos antigos cultos Lusitanos, cujos principais registos foram detectados naquela região e posteriormente estudados pelo nosso notável investigador José Leite de Vasconcelos, na sua monumental obra Religiões da Lusitânia
Não fosse já a qualidade do jovem escultor um motivo mais do que suficiente para merecer o nosso destaque à exposição, esta acresce ainda de importância em virtude das obras apresentadas constituírem um caso raro de representação escultórica das nossas antigas divindades. Convém salientar que apesar de relativamente estudado e conhecido, o panteão das divindades galaico-lusitanas foram raramente objecto de inspiração dos nossos poetas, escritores, músicos, pintores ou escultores, salvo raríssimas excepções. A preferência dada por estes à cultura greco-latina conduziu as divindades mitológicas dos nossos antepassados a um obscurantismo e esquecimento, combatido pelo esforço do trabalho de algumas pessoas, zelosas do nosso importante património cultural e identitário.
Deixámos por isso desta forma expressa a nossa proposta para no próximo Sábado, dia 28 de Maio, ou seja, fazer uma visita à cidade da Guarda e assistir à inauguração desta interessantíssima exposição que contará com a presença do próprio artista.