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sábado, 16 de março de 2013

O Desejado, Cavaleiro do Sonho e do Desejo

Afonso Lopes Vieira fitando o Atlântico.

O Desejado

Cavaleiro do Sonho e do Desejo,
guarda no santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.

Sonho de além e de glória,
há tanto, há tanto
o sonha um Povo inteiro!
Maravilha e encanto
da nossa história:
- oh Manhã de Nevoeiro...

Oh manhã misteriosa
que alvoreces em nós teu rompante claror,
teu messiânico alvor,
manhã de além, alva saudosa,
- tu és nossa força que não passa,
teu sonho em nós revive ao longe e ao perto,
manhã sem dia, oh manhã de Graça,
em que há de vir o Encoberto...

Místico Paladino iluminado,
que ao areal arrastou nossa alma em flor
e jogou a sorrir nosso destino e sorte,
ele era vivo antes de Desejado,
ele era vivo em nosso sonho e amor,
- e nunca o levou a morte!

Ele é vivo e é eterno! Horas ansiadas
em que o sinto, no meu sangue, em mim...
Ele vive nas Ilhas Encantadas
da nossa alma sem fim...

E, oh maravilha!
em toda a hora do perigo e do temor,
o Encoberto volta da sua Ilha,
e salva-nos, e salva-nos, Senhor!...

E a Esperança imortal,
surda palpita na manhã rompente!
Cerra-se a névoa alucinadamente,
Portugal boia no nevoeiro...

E o Cavaleiro
do Sonho e do Desejo
guarda no Santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.

Afonso Lopes Vieira em Ilhas de Bruma.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

D. Sebastião: de Desejado a Encoberto

«O cognome "o Desejado", que vulgarmente se lhe atribui, advém do dramático contexto político em que D. Sebastião foi gerado e em que nasceu. De facto, antes mesmo de vir ao mundo, ele é já depositário da última esperança de que o país não venha, a breve prazo, a ser governado por um rei castelhano. Não admira, pois, que ao seu nascimento seja, desde logo, atribuído um carácter miraculoso, expresso até à exaustão em vários testemunhos da época e que viria a marcar profundamente o seu percurso e a sua imagem pública. Para muitos, essa marca providencial foi o sinal revelador de que D. Sebastião estaria predestinado a alçar Portugal às glórias passadas, como guerreiro defensor da Cristandade.»
Maria Augusta Lima Cruz em D. Sebastião.

Realiza-se no próximo Sábado, dia 2 de Julho, pelas 15:30, na Quinta da Regaleira, em Sintra, uma interessantíssima conferência de Manuel J. Gandra, subordinada ao tema D. Sebastião: de Desejado a Encoberto. Prometendo o orador revelar alguns documentos confidenciais espanhóis relativos ao monarca português, esta comunicação merecerá o mais vivo interesse de todos os apaixonados pelos múltiplos universos inerentes à Cultura Portuguesa encerrados na figura histórica de D. Sebastião, num autêntico convite ao vislumbre daquela Luz escondida para lá do Nevoeiro.

(Clicar no cartaz para ampliar.)

(Clicar no sumário da conferência para ampliar.)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

À memória do Presidente-Rei

Bilhete postal ilustrado representando o assassinato do Presidente Sidónio Pais,
em 14 de Dezembro de 1918.

(...)

Se o amor crê que a Morte mente
Quando a quem quer leva de novo,
Quão mais crê o Rei ainda existe
O amor de um povo!


Quem ele foi sabe-o a Sorte, 
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!

(...)

Até que Deus o laço solte

Que prende à terra a asa que somos,
E a curva novamente volte
Ao que já fomos,

E no ar de bruma que estremece
(Clarim longínquo matinal!)
O DESEJADO enfim regresse
A Portugal!

Excerto de À memória do Presidente-Rei Sidónio Paes de Fernando Pessoa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Encoberto poderá ser D. Afonso Henriques

O Encoberto

Que símbolo fecundo 
Vem na aurora ansiosa? 
Na Cruz Morta do Mundo 
A Vida, que é a Rosa. 

Que símbolo divino 
Traz o dia já visto? 
Na Cruz, que é o Destino, 
A Rosa, que é o Cristo. 

Que símbolo final 
Mostra o sol já desperto? 
Na Cruz morta e fatal 
A Rosa do Encoberto. 

Fernando Pessoa em Mensagem (1934).

Para além da Saudade, um outro importante traço definidor do Arquétipo Português, do nosso imaginário colectivo, é o Messianismo. Em ambos os casos, quando discutidos, assistimos a calorosas e apaixonadas intervenções, seja por força de uma mera questão de definição conceptual, seja em virtude da concordância ou não com estes sentimentos ou emoções. Em todo o caso, o Messianismo Português, mormente apelidado de Sebastianismo, numa clara alusão ao jovem monarca português desaparecido precocemente na batalha norte-africana de Alcácer-Quibir de 4 de Agosto de 1578, acompanha-nos até nos nossos dias, ainda que de forma dissimulada e muitas vezes "encoberta". Várias são as vozes que têm vindo a apontar este traço, tão característico da nossa personalidade pátria, como uma das principais causas da inércia em que temos vindo a mergulhar, sem se aperceberem da necessária proactividade que o Sebastianismo requer na busca pelo tão almejado V Império. Talvez sem se aperceberem, estas vozes críticas, geralmente escravas de um fundamentalismo racional, revisitam o celebre episódio camoniano do Velho do Restelo, augurando maus presságios que, obviamente, esperamos nunca se venham a concretizar.
O Messianismo Português entra no séc. XX pela mão de Sampaio Bruno, em particular, através do seu livro O Encoberto. Contudo, é com Fernando Pessoa que a questão do Desejado é novamente retirada do domínio das elites intelectuais, sendo devolvido ao povo.  

D. Sebastião representado por Lima de Freitas.

Com o nascimento da Filosofia Portuguesa, enquanto movimento filosófico nacional, a questão do Sebastianismo tornou-se de imediato um  dos seus temas nucleares, podendo ser acompanhado nas obras de pensadores como José Marinho,  Francisco Cunha Leão, António Quadros, Pinharanda Gomes, entre outros. 
Em 1987, José van den Besselaar foi convidado pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa a escrever uma pequena obra sintetizadora do Sebastianismo, para ser integrada na colecção Biblioteca Breve, hoje disponibilizada, integralmente, online de forma gratuita pela Biblioteca Digital Camões.  Foi nessa obra, intitulada O Sebastianismo - História sumária, que o autor avançou com uma hipótese para a identidade do Desejado que, não sendo surpreendente, é no mínimo curiosa e menos conhecida do grande público. Assim, José van den Besselaar apresenta uma nota de um monge copista, encarregue de transcrever as Esperanças de Portugal do Padre António Vieira, por alturas da reabertura do processo de canonização de D. Afonso Henriques,  em 1728 por ordem de D. João V, na qual é sugerido o nome do primeiro monarca português como o Desejado ou o Encoberto. É essa interessante nota anónima que hoje vos deixamos neste espaço.
«Até aqui o insigene [sic] e inimitável Padre António Vieira [...]; ele fala com excessivo e meritíssimo amor ao Sereníssimo Rei D. João IV, ao qual prefere com restrita [= exclusiva] inteligência a outro qualquer monarca, fazendo-o particular objecto das suas bem fundadas ponderações e do sentido das profecias do Bandarra, que os seus discursos justamente honra. [...] Mas, como na matéria é problemática, de que o Reverendíssimo Padre não duvida, venerando quanto aqui nos propõe, se dará licença para que sobre a ressurreição  prometida diga um ignorante simbólico [= rematado] também alguma coisa. [...] Protesto não criticar cousa alguma do que aqui vemos escrito e venero, mas falar problematicamente [= hipoteticamente]...

É o poder de Deus infinito, e pode ressuscitar a quem for servido, tanto a um como a outro, e a muitos reis e pessoas segundo as disposições de sua divina vontade e altíssimas e inescrutáveis obras e juízos.
Bandarra, quando vaticina que um rei há-de vencer, bater e sujeitar o Turco, entre muitas outras cousas que pondera diz:

As armas e o pendão
e o guião
foram dadas por vitória
naquele alto Rei da glória,
por memória,
a um santo Rei varão
em possessão.
O Calvário por bandeira
levá-lo-á por cimeira
e alimpará a lameira
(outros dizem: a carreira)
de toda a terra do Cão.
Com que parece que, devendo haver ressurreição de rei, para obrar as maravilhas que profetiza a favor da Igreja e contra o Turco, nos assinala primeiro ao Sr. Rei D. Afonso Henriques, dotado de tantas virtudes, favores do Céu e proezas, a quem o mesmo Cristo deu em possessão as armas [...], para se cumprir nele a profecia que se entende faz da ressurreição de um rei, dizendo que este as levará por cimeira e limpará toda a terra do Cão, como naturalmente se infere das expressões do Bandarra, e que este se deve entender ser o Rei santo e todo o bem-aventurado, a que ele em outra parte aponta; pois se considera tão santo e justo nos progressos da sua vida que está no lance de ser brevemente canonizado...»
O Encoberto, painel de azulejos da autoria de Lima de Freitas.