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sábado, 16 de julho de 2016

Quadro de Honra

«As bandas que encerram este livro são herdeiras desse tempo. Noutra época, com vantagens e desvantagens, mostram que os problemas e os desafios não terminaram, nunca terminaram.»

A arte marginal e os círculos artísticos underground constituem uma parte importante do imaginário cultural das sociedades urbanas contemporâneas. Nestes meios, tanto se edificam pontes entre subculturas distintas, como se afirma a própria identidade de determinados grupos. De resto, esta é uma realidade bastante presente no mundo da música onde, tantas vezes, perdemos o rumo da História em virtude da natureza efémera dos fenómenos que a compõem. Quadro de Honra representa uma compilação de relatos recolhidos na primeira pessoa, visando preservar uma parte significativa dessas memórias.
Importa, antes de tudo, identificarmos o que classificamos aqui de underground e “música alternativa”. Quadro de Honra, obra colectiva assinada pela revista Loud!, publicada pela Saída de Emergência, compila cerca de 30 entrevistas com alguns dos nomes mais emblemáticos da música pesada nacional. Estamos perante um repositório de memórias que nos remete para mais de três décadas de sonoridades extremas que vão do punk ao hardcore e do rock ao metal, aqui entendido nos seus variadíssimos subgéneros. Os colectivos musicais cujas entrevistas compõe esta obra são os protagonistas de uma aventura fantástica e revolucionária, desafiadora do gosto e mercados dominantes.
Ao longo de dezenas de edições, a revista Loud! - referência em Portugal em matéria de jornalismo musical votado às sonoridades mais extremas -, foi efectuando um trabalho de arqueologia musical sob a forma de entrevistas. Levando a cabo um processo de revitalização da memória que passava pela evocação de alguns dos discos mais marcantes da música pesada nacional, esta publicação periódica foi reunindo nas suas páginas os relatos obtidos juntos dos músicos intervenientes neste capítulo menos conhecido da História da Música em Portugal. De clássicos como Mão Morta, Mata Ratos, Peste & Sida, Censurados, ou Tarantula, passando por bandas como Moonspell, Heavenwood, Bizarra Locomotiva, Sacred Sin ou Ramp, não deixam de aparecer entre os testemunhos recolhidos outros nomes menos conhecidos do grande público como, por exemplo, Decayed, Thormentor, Sirius, Corpus Christii, Desire, Morbid Death, In Tha Umbra, Inhuman, Genocide, Grog, Holocausto Canibal, entre outros.
Conforme tão bem descreve o escritor José Luís Peixoto no prefácio a esta obra: «Chegará um dia em que tudo o que constitui este instante será passado.» Assim, podemos afirmar que Quadro de Honra representa o testemunho de um certo passado ainda bastante presente. Um repositório de ecos de glórias passadas que insistem em permanecer vivas, por via de um diálogo perene entre um passado que se afirma e um presente que se esfuma.
Escrito em bom português pré-AO90 - escolha que muito louvámos -, este livro encontra-se enriquecido pela parafernália iconográfica que o documenta, da qual não poderíamos deixar de destacar as ilustrações de Pedro Silva. Trata-se de uma obra imprescindível para a biblioteca de qualquer melómano interessado numa visão etnomusicológica daquilo a que Jorge Lima Barreto chamou, genericamente, de “mmp" – música moderna portuguesa.

Editado em Maio deste ano, Quadro de Honra documenta
três décadas de underground português.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Auto da Primavera: Uma peça esquecida de Luiz de Freitas Branco!

«Ao terminar a leitura do conto O Inverno durava há muito, coincidindo com a conversa havida com António Sardinha e João Cabral do Nascimento, veio-me a inspiração de um trabalho repassado de misticismo e de um fôlego, numa noite, escrevi o Auto da Primavera, que foi publicado em 1919, com música e meu primo o Professor Luiz de Freitas Branco.»
Visconde do Porto da Cruz na introdução do Auto da Primavera.

Capa da segunda edição do Auto da Primavera (1950).

Há alguns anos atrás, de visita à Escola Superior de Dança, escutamos estupefactos um professor de música afirmar, com bastante arrogância e presunção, que não tratava os compositores portugueses nas suas aulas por estes serem menores e não apresentarem obras musicalmente relevantes. Numa atitude que é transversal a praticamente todos os domínios da arte em Portugal, este professor deixou bem patente a ignorância e ignomínia com que a cultura nacional é hoje tratada em grande parte das nossas instituições.
A música erudita em Portugal não só existe, como constitui uma parte significativa do nosso património cultural. Não foi apenas com a idade de ouro da polifonia portuguesa que a cultura lusíada manifestou musicalmente o seu génio e esplendor. Tanto em períodos anteriores, como posteriores, chegando até ao nossos dias, a música portuguesa acompanhou ao longo dos séculos as várias tendências e revoluções, contribuindo em muitos casos para o desenvolvimento dos sucessivos movimentos de ruptura e vanguarda. Isto sem nunca perder a sua identidade e respectivas especificidades.
Infelizmente, nos últimos quarenta anos, à imagem de outras dimensões da cultura nacional, contrariando o nome de um interessante projecto de recuperação do nosso património musical, somos obrigados a afirmar que a música portuguesa não tem gostado de si própria. Nas primeiras páginas da obra seminal Música Minimal Repetitiva, o saudoso musicólogo Jorge Lima Barreto apontou o dedo a três factores que estariam na base desta triste realidade. A inépcia dos contratos culturais dos sucessivos governos; a influência dos mass media, controlados por uma “musoburocracia” que, de um modo inclemente, serve os empresários discográficos dependentes dos interesses estrangeiros; e por fim o próprio público, levado a desconfiar e repudiar tudo o que é português. Conforme podemos testemunhar quotidianamente, a análise destes três pontos é essencial para percebermos o esquecimento ao qual está votado o nosso património musical.
Luiz de Freitas Branco, renomada personalidade do panorama cultural português do século XX, constitui um dos muitos incontornáveis exemplos que nos permitem e obrigam a contrariar comentários infelizes como os daquele pobre professor, repetidor das directrizes antipatriotas do sistema. Compositor, músico e professor, Luiz de Freitas Branco fez parte dos seus estudos na Alemanha. Em Portugal manteve-se sempre próximo do Integralismo Lusitano, convivendo com Alberto Monsaraz, António Sardinha e Hipólito Raposo. Entre os seus alunos no Conservatório de Lisboa, do qual chegou a ser subdirector, constam nomes como Joly Braga Santos ou Maria Campina. Contudo, foi na área da composição musical que deixou a sua marca, através de uma extensíssima obra cujo inquestionável valor o imortalizou na História da Música.
No entanto, também os nossos compositores mais célebres possuem trabalhos menos conhecidos que aguardam o momento de serem redescobertos. É o caso do Auto da Primavera, obra «repassada de espiritualidade», acompanhada pela música de Luiz de Freitas Branco, escrita em meados de 1919 pelo seu excêntrico primo, o Visconde do Porto da Cruz. Nascida de um repto lançado por António Sardinha e João Cabral do Nascimento, esta obra pitoresca de inspiração místico-religiosa suscita a curiosidade de todos quanto se deleitam ao mergulhar num típico quadro romântico de inícios do século XX. Resta-nos hoje a virtude de aguardar pela possibilidade de voltarmos a poder ouvir esta peça, há décadas esquecida.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Telectu Collective apresenta: VideoGardenXXI

«...tem, assim, uma qualificação histórica e cultural; é um veículo de transformação social, um empreendimento filosófico, elemento central e ritualístico, é uma orientação epistemológica alternativa no mundo da música contemporânea globalizada. A verdade do momento, onde o improviso apresenta, como a sucessiva pincelada na tela do pintor, a definição da sua identidade musical, apresenta o indivíduo/músico como membro da colectividade; o Telectu Collective, estabelece um laço na cadeia da tradição instrumental acústica e é participante e/ou manipulador da invenção tecnológica electroacústica. Três vídeos de luminescências levemente coloridas em três cores diferentes, cria um cenário avançado multimédia. Reformula o lema "A arte é vida, a vida é arte".»
Jorge Lima Barreto acerca do projecto Telectu Collective. 

Colagem a partir de capas de alguns livros da autoria de Jorge Lima Barreto.

O legado deixado por Jorge Lima Barreto extravasa largamente o seu carácter material. A influência do músico e musicólogo foi extremamente significativa na cultura nacional, tendo moldado ao longo de várias décadas a personalidade intelectual e acuidade estética de um significativo número de artistas, estudiosos, ou meros apaixonados pelas inúmeras actividades criativas. 
Juntamente com Vítor Rua, fundou em 1982 o duo Telectu, um do principais nomes dentro do panorama musical erudito e vanguardista nacional, uma autêntica Instituição dentro da música portuguesa. Juntos percorreram Portugal, os continentes europeu, asiático e americano, contactando e colaborando com inúmeros músicos, oriundos das mais diferentes proveniências e dos mais diversificados quadrantes musicais, tornando-se numa referência da música aquém e além fronteiras.
Coroado enquanto músico, foi por muitos considerado o maior musicólogo português de todos os tempos. Falecido em Julho de 2012, Jorge Lima Barreto deixou, como é normal na vida dos grandes génios, uma série de projectos por realizar, entre os quais o célebre Telectu Collective, onde ambicionava projectar-se artisticamente de uma forma plural e multidisciplinar, através da colaboração simultânea com artistas destacados das mais variadas áreas.
Em jeito de homenagem, Vítor Rua levará a cabo este sonho de Jorge Lima Barreto já no próximo dia 11 de Maio, pelas 23:50, no MusicBox, em Lisboa. Este é um espectáculo a não perder!

Um programa em jeito de menu

23:50 - Vídeo NOISE. 

24:00 - ENTRADA – Souflée de Mental Noise, servido akusmaticamente por Ilsa D´Orzac, acompanhado de sons metalizadas a laChris Cutler e regado com mel de guitarra de Vítor Rua. 

00:10 - VídeoGardenXXI + MAINFESTO XXI – Lido por Al Mendes com Vídeo-Concert do Jorge Lima Barreto e regado com cordas por Vítor Rua & servido em pratos por Chris Cutler. 

00:20 - COUVERT – Sons eletrónicos por DWART, marinados em baixo por Alex Cortêz, com pancadinhas suaves de Chris Cutler e a guitarra apimentada de Vítor Rua. 

00:25 - APETIZER – Strawb Rock au vapeur com voz de Bernardo Devlin. 

00:35 - VEG DISH – Duo fresquinho com Zul Telecu (Jonas Runa & Vítor Rua). 

00:45 - CONSOMÉ – Performance apimentada por Carlos Zíngaro e João e Ana Galante.

00:55 - PRATO I – Bateria cortada às fatias com facas por Luís San Payo & Iana Reis. 

01:00 - PRATO II – Contrabaixo salteado com cordas electrizantes, pratos refrescantes com peles ricas em proteínas, mais piano preparado com amor e voz sexy angelical por Hernâni Faustino & Manuel Guimarães & Vítor Rua & Luís San Payo & Pedro Alçada & Cláudia Efe. 

01:10 - VEG Vídeo – InfoArte de Cecília Melo e Castro. 

01:05 - FAST FOOD – Brain Waves com óculos de luz no forno por Karlheinz Andrade & Gonçalo Falcão no esparghete electrónico. 

01:10 - Saxopera por Henrique Portovedo servido com vídeo & suporte digital. 

01:15 - GREAT FOOD – Performance universalmente excitante pelo maior performer vivo do planeta Terra servida com as mãos por Manoel Barbosa. Com molho de D.W.Art & Vítor Rua, salpicados de percussão de Chris Cutler. 

01:25 - DESSERT – Vean Vídeo – Vídeo-letter de António Barros. 

01:30 - Finale – Tutti-Frutti.

Minimal I, música de Telectu composta em 1990 durante a fase minimal
repetitiva daquele colectivo.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Reflexão final de 2011

Na ressaca de um final de ano marcado pelo desgaste causado em todos nós, eis a altura de erguermos de novo a cabeça, olhando para o futuro sobre as ruínas, com aquele vislumbre de justos e dignos vencedores. 
2011 não foi um ano particularmente fácil para Portugal e os portugueses. Desapareceram importantes nomes da nossa cultura, salientando-se algumas personalidades como Jorge Lima Barreto, Ângelo de Sousa, Júlio Resende, João Maria Tudella ou Zé Leonel.
O (des)acordo ortográfico pareceu ganhar força após ser adoptado pelos organismos de Estado e infestado o nosso mercado livreiro, corrompendo a nossa língua e, consequentemente, a nossa cultura. Felizmente, a esperança num volte-face que passe pela revogação desta asneira-atentado, nado de mais um hediondo acto legislativo pseudo-democrático, mantém-se viva por mérito da acção de alguns intelectuais portugueses e vários grupos de cidadãos anónimos que procuram combater e reverter como podem esta situação, mostrando deste modo a vitalidade do nosso Povo, assim como a vontade subterrânea, telúrica e profunda de garantir a manutenção vital de Portugal.
A subserviência do Estado Português ao Fundo Monetário Internacional e a crescente ingerência da União Europeia da rainha das salsichas nos nossos assuntos internos constituem outras das afrontas que fomos obrigados a superar ao longo de 2011, revelando uma vez mais a realidade de um Portugal a saque, traído pelos bastardos do sistema.
Quando as boas novas que nos tentam apresentar passam pela venda à China de empresas nacionais ligadas a sectores estrategicamente nucleares para a nossa economia e soberania, ou pela elevação do Fado a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, amputando-os um dos traços mais tradicionais e característicos da nossa cultura, transformando-o em mais um mero produto turístico-comercial globalizado, é sinal de que algo vai bastante mal nesta estreita mas perene faixa de território geograficamente localizada no extremo ocidente europeu. 
Ainda assim, o peso da nossa História e a importância da nossa Missão desperta a audácia e o espírito combativo e vencedor encerrado na nossa memória colectiva. Queiram ou não os detractores da cultura lusíada, o nosso fado é vencer! Afinal de contas, temos tudo quando temos Portugal!

sábado, 9 de julho de 2011

Jorge Lima Barreto, o Musonauta (1949-2011)

«Ao longo de quase três décadas de escrita ininterrupta, Jorge Lima Barreto construiu e legitimou, por mérito próprio, o seu campo de estudo - um amplo espectro de linguagens estético-musicais que vão da vanguarda erudita ao jazz, e do minimalismo às componentes musicais associadas às novas artes performativas e ao multimédia. (...)
Uma Cultura enriquece-se, indiscutivelmente, ao manter vivos as suas raízes e o seu património histórico-musicais, mas castra-se, envelhece e morre sem geração se não souber extrair dessa consciência do seu passado a energia para investir na criação artística permanente, capaz de continuar, a cada momento, a constituir novo património. Por isso - e porque, ainda por cima, esta negação enfática da contemporaneidade  tem muito a ver com a subordinação crescente da nossa vida cultural aos interesses e estratégias dos grandes grupos económicos multinacionais em que assentam a indústria discográfica e audiovisual e o mercado concertístico - não posso deixar de me solidarizar com este verdadeiro sacerdócio de Jorge Lima Barreto em prol das músicas do presente, que é também, em última análise, parte de um combate mais geral indispensável contra um poder económico ilegítimo, alienante e destruidor.
Mas Jorge Lima Barreto não incide de forma acrítica e neutra, como o faria um antropólogo, sobre a totalidade das músicas contemporâneas. Assume preferências, mesmo que eclécticas, faz escolhas eminentemente idiossincráticas, e é assim que privilegia inequivocamente os domínios da criação musical que contêm uma nítida vertente experimental e que se situam, por isso mesmo, à margem da produção massificada do mercado dos sons, pensada para o fabrico e venda constantes de objectos musicais aferidos pelos padrões e expectativas médios do público consumidor. Também aqui há um gesto político e ideológico com o qual me identifico profundamente: o da recusa da globalização uniformizadora, o da valorização das correntes minoritárias, o da salvaguarda, afinal, do direito à diferença. (...)
Lima Barreto ama apaixonadamente as "suas" músicas - todas elas e cada uma delas -, e este amor transparece de forma nítida na sua escrita como nas suas próprias opções de vida. Raras vezes conheci alguém que vivesse de um modo tão absoluto para a Música, investindo nela com tal intensidade o seu tempo, os seus recursos, as suas emoções; e é esta dedicação integral (vem-me aqui de novo à mente a palavra "sacerdócio" no sentido mais nobre) que se revela no seu discurso e lhe dá uma autenticidade  e uma força moral inegáveis, partilhe-se ou não integralmente os pressupostos epistemológicos da abordagem adoptada.
»
Rui Vieira Nery no prefácio da obra Musonautas de Jorge Lima Barreto.


Portugal não empobrece quando uma agência de ranking especula criminosamente sobre a nossa situação económica. Portugal não depende sequer do materialismo do mundo moderno para se realizar. Depende sim, da sua memória colectiva  e espiritual, bem como da força e tenacidade do génio português, essa vítima diária de múltiplas tentativas de assassinato por asfixia. Portugal empobrece quando perde as suas grandes referências culturais, intelectuais e artísticas, assim como quando esquece os seus maiores, tanto passados como presentes, hipotecando assim o sucesso dos vindouros. 
Portugal ficou hoje mais pobre com o desaparecimento de Jorge Lima Barreto, indiscutivelmente, um dos maiores intelectuais portugueses de finais do séc. XX e inícios do séc. XXI. Músico, musicólogo, compositor, tradutor, poliartista, conferencista, académico, jornalista, radialista e coleccionador, Jorge Lima Barreto destacou-se em todas as suas áreas de intervenção, tanto em Portugal, como no estrangeiro.
Avesso às regras e leis de um sistema em que não acreditava e no qual não se revia, negou-o e combateu-o estoicamente com a maior das verticalidades, hipotecando desse modo algumas oportunidades que a sua sujeição talvez lhe proporcionassem. A sua força e determinação mostrou, de uma forma exemplar, a existência de outras vias, por ventura mais sinuosas e duras, para conquistar a imortalidade, abdicando da decadência a que os fracos se sujeitam para entre os seus pares se fazerem fortes.
Conhecido pela sua irreverência e não conformismo, destaca-se o seu percurso artístico, tendo sido logo desde os anos 1970 o principal  introdutor e percursor em Portugal de várias gramáticas musicais, sobretudo após a criação do duo Telectu, juntamente com o músico e compositor Vítor Rua, já em inícios da década de 1980. Com dezenas de livros e álbuns editados, Jorge Lima Barreto actuou um pouco por todo o mundo, tendo trabalhado com alguns dos grandes nomes da música contemporânea como Elliot Sharp, Jac Berrocal, Chris Cutler, Louis Sclavis, Jean Sarbib, Paul Lytton, Evan Parker, Sunny Murray, Carlos Zíngaro, Ikue Mori, Paul Rutherford, Giancarlo Schiaffini, Eddie Prévost, entre inúmeros outros. No que concerne ao seu contributo bibliográfico nos domínios da musicologia, da antropologia social e estética, deixou-nos obras como Revolução do Jazz, Jazz-Off, Rock Trip, Musicónimos, Rock & Droga, JazzBand 1900/1960 - Anarqueologia do Jazz, Música Minimal Repetitiva, Nova Música Viva, JazzArte, O Siamês Telefax Stradivarius, Música e Mass Media, Musa Lusa, b-boy, Zapp, Musonautas, entre outras. Traduziu ainda nos anos 1970 obras de Jean Paul Sartre, Jean Piaget, Jacques Monod, Gisélle Noami e Michel Foucault. 
Contrariamente ao que tem vindo a ser anunciado pela comunicação social, não foi uma pneumonia que ceifou a vida a Jorge Lima Barreto, ou qualquer outro problema de saúde. Não, pelo menos de uma forma directa. O que vitimou Jorge Lima Barreto foi o mundo moderno. Mundo moderno esse que nada tem a ver com o mundo das vanguardas que o nosso intelectual sempre ajudou a criar e onde sempre se moveu. Fala-se aqui de um mundo moderno assente nos pilares da mediocridade e da mesquinhez, dos interesses vis de quem pelo dinheiro tudo pode, tudo compra, tudo molda, tudo corrompe, tudo destrói. Essa é tenebrosa realidade que, durante toda a sua vida, o procurou eclipsar, após aperceber-se que não o conseguia vergar. Contudo, a luz do seu talento e do seu intelecto revelou-se quase sempre mais forte do que as trevas que o procuravam envolver. É este mundo que nunca conseguiu absorver Jorge Lima Barreto, procurando por isso negligenciá-lo e esquecê-lo que hoje o chora e procura celebrar...
Jorge Lima Barreto é assim um triunfador a quem Portugal muito deve, pelo que é um dever de todos os portugueses lembrarem a memória e a obra deste artista e intelectual.

Solstice II de Jorge Lima Barreto, retirado do álbum Neo Neon (2003). 

(Aos que quiserem conhecer um pouco melhor e mais pormenorizadamente o riquíssimo percurso de Jorge Lima Barreto, poderão aceder aqui ao seu currículo abreviado.)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Colecção "Bandas Míticas"

«A música pop em Portugal resulta duma industrialização progressiva da sociedade e referencia o modelo anglo-americano original; desterritorializando um sentido musical nacional pelo seu investimento tecnológico, é descodificadora da própria raiz cultural e formula-se num discurso sintético.
A pop music e a sua mais expressiva forma, o rock, tem um carácter controverso no nosso panorama musical. Dos músicos e agrupamentos de relevância podemos aferir um alto teor de agressividade publicitária que não esconde uma irreverência superficial, numa tentativa de imitar os valores da pop internacional, uma nacionalização do produto.
»
Jorge Lima Barreto em Musa Lusa.

(Clicar na imagem para ampliar.)

Chega amanhã às bancas, com o Correio da Manhã, a primeira entrega da colecção Bandas Míticas. Trata-se de um conjunto de vinte e um pequenos livros sobre algumas das mais conhecidas bandas pop e rock portuguesas, acompanhados por compilações exclusivas, cobrindo alguns dos seus melhores momentos. Organizada por David Ferreira, poderão ser encontrados nesta colecção nomes como Sheiks, Quarteto 1111, GNR, Heróis do Mar, Sétima Legião, Rádio Macau, Táxi, Rui Veloso, Ena Pá 2000, entre inúmeros outros.
Esta colecção terá uma periodicidade semanal estando disponível nas bancas, todos os Sábados, entre 2 de Julho e 5 de Novembro. O preço de cada livro, com o respectivo CD, será de 5,95 euros, sendo que na primeira entrega serão entregues duas unidades pelo preço de uma.