Mostrar mensagens com a etiqueta Dia dos Finados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dia dos Finados. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de novembro de 2015

1.º de Novembro

«...o intenso laço moral que é o culto dos Mortos...»
António Sardinha em O Valor da Raça

É de conhecimento geral que os portugueses tendem a confundir, como que propositadamente e por motivos meramente práticos, o Dia de Todos dos Santos com o Dia dos Fiéis Defuntos. Um tipo de oposição que nos é natural face à natureza teórica das coisas, mesmo que estejamos a referir-nos a preceitos teológicos ou religiosos. E sim, o português é um Povo de Fé. Sempre foi e sempre será, não obstante a natureza selvagem e heterodoxa que caracteriza, por vezes, o axioma da sua alma colectiva. 
Esse espírito indomável que tantas vezes tende, talvez por aversão ao tédio e à fervente vontade de viver, a reinventar os modos de ver e projectar a nossa tradição, acabando por renovar-se constantemente, mostrando a vitalidade incomum do nosso ethos face ao de outros povos. Lembremos, por exemplo, as especificidades do nosso primeiro modernismo que mais não fez do que procurar reintegrar Portugal no seu próprio eixo espiritual, reaproximando a nossa Pátria da sua ancestral  e quase milenar tradição.
Com efeito, voltando à vivência espiritual do Dia dos Fiéis Defuntos no Dia de Todos os Santos, recordamos um eco da mais antiga e profunda religiosidade portuguesa, associada ao culto dos mortos. Um eco forte e contemporâneo que replica um grito atávico cuja origem recente é, no mínimo improvável. Porém, assim são os desígnios de Deus e dos princípios teleológicos da nossa Pátria. O delírio mecânico-futurista patente no tema 1.º de Novembro, da autoria dos bracarenses Mão Morta, reflecte a existência de uma luz que anima até as mais improváveis almas. O ambiente retratado pela letra desta música, pesado e lúgubre, transmite a persistência salvífica da nossa tradição num mundo que lhe é cada vez mais hostil. Afinal, entre os modernos ritmos do nosso quotidiano, subsiste ainda aquela alma portuguesa, dotada de uma doçura humana quase transcendente, nada indiferente à dor causada por uma solidão contrabalançada pela saudade do porvir.
O amor e a saudade que sentimos na dor causada pela falta dos nossos mortos não é mais do que aquele grito surdo de querermos perpetuar aquém-vida e além-morte. São as glórias, as paixões e memórias vividas juntas dos nossos ente-queridos. Preservar estes momentos de diálogo com o passado são a prova de que existe esperança no futuro. Por este motivo, é importante conservarmos esta vivência, mesmo que a música se ouça triste, na solidão dos dias chuvosos. 

1.º de Novembro

Um traço, um berço
Dois destinos que se cruzam na lonjura da distância
Erva fálica pelo caminho
Distúrbios, subúrbios
Automóveis ferrugentos desenhando o horizonte
Os paralelos asfixiam a alma
Solidão, saudade
Rumagens, romaria aos queridos defuntos
Carcaças abandonadas ao passado
Lágrimas, fábricas
Tempo invernoso sublinhando a ausência
A música ouve-se triste
Solidão!
Saudade!
Romagens!
Romarias!
Solidão!
Saudade!
Queridos!
Defuntos!


O tema 1.º de Novembro, dos Mão Morta, figurou primeiramente no LP compilação
À Sombra de Deus, editado pela Câmara Municipal de Braga em finais da década de 1980.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Enterrar o (des)acordo ortográfico no dia dos Fiéis Defuntos

«Sou favorável ao Acordo Ortográfico de 1945, com críticas a opções de pormenor, mas não aos seus princípios gerais. Não sou favorável a um Acordo publicitado como "uma das medidas mais urgentes para a unificação da língua portuguesa", como afirmou Solange Parvaux, em 2004, na Fundação Calouste Gulbenkian , esquecendo que as divergências morfossintácticas e lexicais impedem tal projecto, no mínimo, megalómano. Sou favorável a uma reforma ortográfica que dignifique a minha língua e não a qualquer documento nem a qualquer processo que se baseie exclusivamente em relações de poder, em questões que envolvam "locomotivas" e "inevitabilidade", quando as razões da ortografia são linguísticas, devendo estas ser escutadas e analisadas por quem de direito e não ofuscadas por luzes que do rigor há muito se afastaram.»
Francisco Miguel Valada  no artigo Os ii do Acordo Ortográfico, ponto por ponto,
publicado na edição de 7 de Janeiro de 2010 do Público.

Francisco Miguel Valada, autor da obra Demanda,
Deriva, Desastre – os três dês do Acordo
Ortográfico
, publicada  pela Textiverso.

No dia em que Portugal e todo o mundo católico celebra os Fiéis Defuntos, não poderíamos deixar de lembrar algo que qualquer bom português deveria querer enterrar, não com tristeza, mas com uma enorme alegria. Estamos a falar, como não poderia deixar de ser, do malfadado (des)acordo ortográfico que nos últimos tempos tem vindo a contaminar, tal erva daninha a alastrar, o nosso mercado livreiro e editorial, as nossas Instituições, incluindo o nosso sistema educativo, corroendo e destruindo a Língua e Cultura Portuguesa, a partir de dentro, como se de um cancro se tratasse.
Abraçado pelos obscuros interesses financeiros e comerciais, vendido por uma classe política corrupta e comprometida, como um fruto da inevitabilidade dos tempos modernos, impõe-se agora, mais do que nunca, aos verdadeiros portugueses a revolta contra o culturicídio imposto por estas forças antagonistas dos nossos interesses culturais, patrimoniais e patrióticos, consumado na implantação deste sinistro (des)acordo. É por isso necessário matá-lo e enterrá-lo democraticamente em parte incerta, para que no futuro não possam, os abjectos detractores da nossa Magna Língua, procurar ressuscitá-lo.
E já que o dia é dos finados, correndo um cheiro a morte com a húmida brisa deste chuvoso Outono, aproveitámos a ocasião para divulgar o blogue pessoal de Francisco Miguel Valada, autor do livro Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico, carrasco assumido e declarado da infâmia imposta à nossa Língua-Mãe. No seu blogue, http://fmvalada.blogs.sapo.pt, podemos acompanhar os vários artigos que o autor tem vindo a publicar na imprensa nacional, subordinados à questão do (des)acordo ortográfico. Trata-se de mais uma posição firme, lúcida e consciente, que convidamos a conhecer em prol da Língua Portuguesa.

terça-feira, 2 de novembro de 2010